segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

António Souto – Crónica (54)



... teimosamente o natal é sempre quando é dezembro e a chuva e o frio nos lembram que a primavera ainda vem longe. Pior, o natal, como o inverno da nossa meninice, entra-nos já pelos poros adentro logo nos primeiros dias de novembro, sem pedir licença nem agasalho, acenando de costas voltadas às andorinhas que abalam. Tudo em minúscula, tudo minúsculo…

Um natal de cansaço
Começo a ficar cansado de ouvir e ver tanto natal quando chega a quadra natalícia, como se não houvesse mais nada para ver e ouvir. Se ao menos o natal pudesse ser realmente quando o homem quisesse, a gente inventava um quando nos apetecesse ou, então, o que era ainda mais fácil, a gente riscava-o quando chegassem os primeiros bolos-reis apócrifos e as iluminações de rua nos distraíssem da severidade da vida. Mas não, teimosamente o natal é sempre quando é dezembro e a chuva e o frio nos lembram que a primavera ainda vem longe. Pior, o natal, como o inverno da nossa meninice, entra-nos já pelos poros adentro logo nos primeiros dias de novembro, sem pedir licença nem agasalho, acenando de costas voltadas às andorinhas que abalam. Tudo em minúscula, tudo minúsculo…
É verdade que este ano parece haver menos natal, está tudo um bocadinho apagado, pelo menos aqui pelos meus lados, que não vejo luzes nas avenidas nem nas praças, nem ainda nas janelas, só um ou outro pai-natal, insignificante e esganado, numa ou noutra fachada dos prédios vizinhos, mas mesmo assim tenho a certeza de que, mais dia, menos dia, o natal chegará a valer, pela capital já cheira a ele, e, se não anda já à solta pelas artérias do burgo, andará por certo em reboliço pelos centros comerciais todos que existem num raio de vinte ou trinta quilómetros, e de sexta à noite a domingo à tarde, não haverá lugar nos estacionamentos nem nos elevadores nem nas escadas rolantes nem nos corredores labirínticos sobrepostos nem nas salas de cinema nem em certas lojas que vendem roupa a preço fingido de saldo ou bugigangas de iludir e de esvaziar a bolsa. E a ninguém causará perplexidade saber que há quem se atole em natal quando o tempo é de lusco-fusco e o desalento se entranha mais que o frio.
Por isso me cansa ouvir e ver tanto natal, e me cansa ainda mais quando chove em vésperas de nevar e as palavras se tornam insuficientes para tanto branco.
«Chove. É dia de Natal./ Lá para o Norte é melhor:/ Há a neve que faz mal,/ E o frio que ainda é pior.// E toda a gente é contente/ Porque é dia de o ficar./ Chove no Natal presente./ Antes isso que nevar.// Pois apesar de ser esse/ O Natal da convenção,/ Quando o corpo me arrefece/ Tenho frio e Natal não.// Deixo sentir a quem quadra/ E o Natal a quem o fez,/ Pois se escrevo ainda outra quadra/ Fico gelado dos pés.» (Fernando Pessoa)
Quando penso nisto, e muito embora não podendo a gente ter um natal à nossa medida, vergo-me e reconheço que, de facto, pouco mais há para ver e para ouvir do que o natal que nos vaticinaram, um mês inteiro só de natal, um dezembro de natal todo minúsculo e amassado em azedume, e dentro dele um brinde para nos decorar o presépio que deixaremos a um canto da sala, em abandono, por largos anos, até que se dissipe o sonho que tivemos, um dia, em crianças.
Cansaço apenas.

Crónica de Novembro de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 3635; 3738;   39; 40; 41; 42; 43; 44; 45; 46; 47; 48; 49; 50; 51; 52; 53.