quinta-feira, 30 de agosto de 2012

António Souto – Crónica (51)


… promovendo uns quantos cursos inovadores assentes em cadeiras, e agora somos nós a alvitrar, que determinadas universidades dão por bem sucedidas, como «Zombies» (Universidade de Edimburgo); «David Beckham» (Universidade de Staffordshire); «Harry Potter» (Universidade de Durham); «Star Trek» (Universidade de Georgetown); «Símbolos fálicos» (Colégio Ocidental); «Xarope de Ácer» (Alfred University, Nova Iorque); «Renda [de bilros ou outra]» (Universidade de Glasgow); «Star Wars» (Queen's University Belfast); «Robin dos Bosques» (Universidade de Nottingham) ou «Caça-fantasmas» (Universidade de Coventry).

À espera de Setembro
Está praticamente tudo fechado para férias neste lindo mês de Agosto. E bem podem fazer questão de nos tirar as férias e aquilo que as subsidia que elas são sagradas, e penando uns mais outros menos lá se vai cada um de nós desempeçando com os cêntimos sobrantes. Isto de fechado para férias é como quem diz, que há fechaduras que tão cedo não voltarão a rodar por serem as férias inevitavelmente estendidas, mas disto não discorreremos, que assaz se tem perorado, disto, dos incêndios e de outras acrimónias do Verão.
Por isso, poderíamos igualmente confessar que também nos continuamos mantendo em regime de ócio e, assim, arranjarmos desculpa decorosa para nos esquivarmos ao encargo da crónica mensal, mas ficaríamos por certo de mal com a nossa consciência. Não aprontaremos pretextos, portanto, mas a verdade é que os assuntos merecedores de atenção acabam por falhar e ficamos para aqui à deriva a ver se chegamos à costa, isto é, ao final da página, sem que o leitor dê pelo vazio da substância. É claro que há sempre forma de contornar as vagas.
Por exemplo, fazermos como fez Luiz Fagundes Duarte numa crónica recente, que à falta de matéria e ou de inspiração se decidiu por discorrer sobre as placas toponímicas «inauguratórias», sobre o pouco que dizem e, sobretudo, do muito que fica por dizer. Coloca-se uma primeira pedra num descampado ou inaugura-se uma qualquer obra, feita ou não, e lá fica uma lápide com o registo da Excelência que a descerrou (ou não, às vezes, que conhecemos pelo menos uma pedra com o nome de um «descerrante» que no acto se encontrava a léguas) e, quando calha, ainda de uns quantos insignes que assistiram protocolarmente ao evento, mas nunca se entalham os nomes daqueles que deram o corpo e o coiro ao manifesto. Foi por estas e por outras que Saramago, narrando-nos a edificação do Convento de Mafra, decidiu nomear vinte e três operários, de A a Z, edificando-os também, porque deles foi a maior parte da criação.
Ou, por exemplo, chamarmos à colação conteúdo mais contundente, como a efusiva sugestão do presidente do Comité Olímpico Português de, «sem conotações políticas», ser reactivada a Mocidade Portuguesa. Uma proposta virtuosa para pôr os atletas de alta competição na linha, que isto de ir uma vastíssima delegação para o estrangeiro malbaratar uma fortuna e, no regresso, trazer duas míseras medalhas não é exemplo para ninguém, muito menos para a Pátria, e é de nobres exemplos que a Pátria necessita, bem como de elevados encorajamentos como este, ou como aqueloutro que, coincidentemente, pretendia a suspensão da democracia por uns meses.
Ou, por exemplo, imergirmos até nos faltar o ar por insignificâncias que têm preocupado gente folgada a propósito do desaparecimento de documentos relativos aos famigerados contratos dos submarinos que tanto têm dado que falar por cá como por águas alemãs e que um ex-ministro da Defesa já esclareceu não saber de nada e muito menos os ditos terem vindo acidentalmente misturados com as 61.893 páginas que fotocopiou nos idos de 2007 e que um Expresso de Novembro desse ano muito bem elucidou.
Ou, por exemplo, e isto seria bem mais sério, sublinharmos o desafio reformador de o Ministério da Educação atingir a curto prazo uma oferta de 50% de cursos profissionais nas escolas portuguesas, o mesmo objectivo de há uns quatro ou cinco anos, promovendo uns quantos cursos inovadores assentes em cadeiras, e agora somos nós a alvitrar, que determinadas universidades dão por bem sucedidas, como «Zombies» (Universidade de Edimburgo); «David Beckham» (Universidade de Staffordshire); «Harry Potter» (Universidade de Durham); «Star Trek» (Universidade de Georgetown); «Símbolos fálicos» (Colégio Ocidental); «Xarope de Ácer» (Alfred University, Nova Iorque); «Renda [de bilros ou outra]» (Universidade de Glasgow); «Star Wars» (Queen's University Belfast); «Robin dos Bosques» (Universidade de Nottingham) ou «Caça-fantasmas» (Universidade de Coventry). Era só uma questão de alguns poucos ajustamentos e de alguma pouca imaginação.
Mas não, não nos apetece encher chouriços, empatar, para sermos mais elegantes, não vá o leitor enfadar-se, e com razão, de maneira que nos ficamos por aqui, sem cronicarmos nada, nadinha, esperando apenas por Setembro.

Crónica de Agosto de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 3635; 3738;   39; 40; 41; 42; 43; 44; 45; 46; 47; 48; 49; 50.


2 comentários:

Manuel C. Gomes disse...

DUAS medalhas?

António Souto disse...

Está bem, Manuel, foi só uma na canoagem, mas como os atletas eram dois sempre vieram ambos cada um com a sua!!!