terça-feira, 30 de setembro de 2008

A frase da noite

«Eu nunca dormi com uma espanhola.»
Confissão de um jurista, esta noite, no programa «Prós e Contras», da RTP,
sobre a nova lei do divórcio.
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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O que vou escrevendo

Um pouco do que vou escrevendo…
Eu não os via, mas era mais do que imaginá-los o que acontecia comigo. Estavam à minha frente, alguns deles a fazerem um meio sorriso e a cruzarem os braços de diversas maneiras para ensaiarem uns ares de pose, como se pensassem que aquilo que eu tinha apanhado do chão não era uma pedra mas uma máquina fotográfica. Que iam de novo ser capa de revista, ou aparecer na primeira página de um jornal, todos juntos, cada um com a sua pose, uns de braços cruzados, outros com as juntas dos dedos de uma das mãos a suportarem o queixo, outros mexendo no cabelo, outros coçando alguma parte do corpo, outros ainda com uma ervinha seca a fazerem uma limpeza de rotina no intervalo de dois dentes.
(imagem do cenário aqui)
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domingo, 28 de setembro de 2008

Criatividade garantida

O que coloco a seguir é a divulgação de um curso de escrita criativa do Luís Graça. Para os interessados, deixo aqui um e-mail: agostinhodasilva@mail.pt. Acho que a criatividade neste curso está mais do que garantida.
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Luís Graça dá curso de escrita criativa a partir de álbuns de banda desenhada
O jornalista e escritor Luís Graça vai dar um curso de Escrita Criativa a partir de álbuns de Banda Desenhada.
O curso decorrerá durante seis sessões, às quartas-feiras, entre as 18 e as 19h30m, na sede da Associação Agostinho da Silva, ao Príncipe Real, em Lisboa.
O início ocorrerá a 22 de Outubro e o final a 26 de Novembro.
O preço de inscrição é de 50 euros e o número de vagas está limitado a 20, sem prejuízo de reservar vaga para edições seguintes do curso, caso não se consiga inscrever para o primeiro.
No final do curso será construído um blogue pelos alunos, de forma a prosseguir o trabalho de forma interactiva.
Os álbuns de BD a partir dos quais se trabalhará (não é indispensável a sua aquisição, é aconselhável a sua leitura prévia) são os seguintes:
- «A balada do Mar Salgado» (Hugo Pratt), complementada com histórias curtas de Corto Maltese;- «A Marca Amarela» (da série «Blake and Mortimer», de Jacobs);
- «Astérix e o Caldeirão» (Goscinny/ Uderzo);
- «A Trompa de Névoa» (da série «Cavaleiro Ardente», de François Craenhals);
- «O Clic 1» e «O Clic 2» (Milo Manara).
Os álbuns «A Balada do Mar Salgado» e «A Trompa de Névoa» (é muito difícil encontrá-los disponíveis à venda) podem ser lidos na Bedeteca de Lisboa, perto do Metro dos Olivais.

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Um jogo em Marte

Talvez este jogo (Benfica 2, Sporting 0)) tenha sido dos que melhor demonstraram que Paulo Bento é um treinador pouco inteligente. Já por várias vezes me referi neste blog ao «problema do QI», que acaba por ser algo que contrabalança muitas características positivas do treinador do Sporting. Ontem à noite, uma vez mais, o QI ficou bem à vista de quem observou o jogo atentamente e ao mesmo tempo pensou na actuação de Paulo Bento enquanto o mesmo durou; e até depois, na altura de fazer os comentários, onde de novo ele foi fazer uma descrição do que tinha ido acontecendo, como se o jogo tivesse sido disputado em Marte e não tivesse havido condições tecnológicas para a transmissão. Paulo Bento faz sempre isto no fim de cada jogo, põe-se a descrever o que se passou, independentemente de o fazer mal ou bem. Podia trabalhar para a Liga de Clubes, a escrever os relatórios dos jogos em que participa, e até para a UEFA. O que faz sempre é uma descrição. Dá até a ideia de que durante os jogos está mais preocupado em recolher elementos para o que depois «terá» de descrever do que em tentar encontrar formas de ter em campo uma equipa capaz de superiorizar-se ao adversário. É mesmo um problema para o Sporting, ter um treinador que junta boas capacidades, que são inegáveis, ao facto de, afinal, ser um treinador pouco inteligente. No jogo de ontem à noite, aparentemente um jogo fácil, isso ficou mais do que à vista, e a partir do final do primeiro quarto de hora da segunda parte percebeu-se que o Sporting podia de um momento para o outro sofrer um golo e acabar derrotado. Paulo Bento, já se vê, nem deve ter dado por nada.
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quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O que vou escrevendo

Um pouco do que vou escrevendo…
Lembrei-me a certa altura de que a linha de fogo, quase sempre tão calma, também poderia desatar a correr. Todos os seus quilómetros de chamas poderiam desatar a correr, ou antes, poderiam meter-se a serpentear pelos montes. O que é que isso causaria por ali? A linha de fogo a serpentear... Se assim calma não era apagada, a serpentear ainda menos seria. Ou o facto de ela serpentear, de se mostrar muito agitada, poderia levar a que os bombeiros a atacassem? Talvez não, talvez pensassem que assim ainda era menos ameaçadora do que se estivesse calma, talvez um chefe – algum «responsável», como era costume ouvir-se dizer, principalmente nos casos em que aquilo que verdadeiramente se percebia era a irresponsabilidade –, talvez um desses mandadores se saísse com uma frase do tipo «cão que ladra não morde», ou «serpente que serpenteia não ferra o dente», e talvez a seguir desse ordem para que deixassem a linha de fogo serpentear à vontade. Talvez até dissesse que a serpentear ela queimaria menos do que se estivesse calma, com tempo e atenção para atingir cada árvore, cada mato, cada erva seca, cada bicho que se atrasasse a fugir para bem longe.
(imagem do cenário aqui)
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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O relato

Fez-me lembrar o o futebol dos filósofos. Refiro-me ao que o Luís Graça deixou na caixa de comentários de um post do blog da revista «Ler», isto…
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Temperatura amena no Salão Nobre da Biblioteca Municipal de Lisboa. Os leitores já estão sentados e aguarda-se a todo o momento que Jorge Couto apite para o início do desafio. Vai ser auxiliado do lado da Torre do Tombo por José António Pinto Ribeiro e do lado da estátua da Guerra Peninsular por Teolinda Gersão.
Luís Graça toca curtinho para Dick Hard, Dick Hard introduz um poema de «A Idade das Trovas», de Inocêncio Pinga-Amor. É «Nenúfar», o título do poema.
MRP reclama que Dick Hard não pode colocar em jogo um poema lírico.O jogo está parado e recorre-se ao vídeo-wall, onde Genaro Olivieri, Guido Pancaldi, Vasco Graça Moura e Eduardo Lourenço vão analisar a situação.
As 17 regras do novo Acordo Ortográfico não são bem claras, mas Jorge Couto aponta para o centro de «Sei lá».
MRP segue agora com o livro bem dominado no regaço. Passa por uma tia, diz adeus a outra, diminuiu bruscamente de velocidade numa montra da Prada, volta a correr com o romance na mão. Deixa cair uma metáfora, recupera e aparece Rick Dart e corta pelo parágrafo final.
Livro de cantos. Já vão dez a favor de Luís. Onde Vaz, Graça? Conseguirá aguentar toda a pressão em cima dos seus corners?
MRP, em belo momento de forma, muito leve, muito Light, muito Tahiti duche com monói, mete no coração da área, recebe com «Alma de Pássaro» e sobrevoa a zona de perigo. A obra cai num vidrão.
A equipa técnica da Oficina do Livro está apreensiva. Apesar de um maior domínio estantorial, MRP não conseguiu fazer esquecer «O Homem que Casou com Uma Estrela Porno e outros contos perversos», da Polvo. Rui Brito, encostado ao banco, de braços cruzados, manda aquecer Jorge Deodato, recuperado de uma recente lesão na Feira do Livro.
É agora Luís Graça que avança pelos terrenos da Oficina. Ouvem-se protestos de Gil Cancela Leite, a propósito da capa de João Pita Grós, em «A Idade das Trovas». O dirigente da Camilo Castelo Branco está nervoso. A Universitária poderá ter uma palavra a dizer neste importante prelo a contar para a terceira jornada da primeira fase da Liga das Ilustrações.
João Fazenda despe o fato de treino. Recorde-se que o ilustrador, que já actuou na Polvo e na Oficina do Livro, prepara-se agora para colorir «Português Suave». MRP já tem a cara cheia de algarismos, para que João Fazenda possa colorir em conformidade.
Vem de novo Luís Graça em bom andamento, está a ler a terceira cena de «Meia-Dúzia de Maldades», terceiro prémio do concurso Novos Textos do Inatel, amortece uma didascália, cola na relva, prepara um curso de escrita criativa na Associação Agostinho da Silva, na Rua do Jasmim, número 11.
Brown, serial killer da peça premiada em 2000, pede para ser substituído. Josué Morteirinho entra na Biblioteca e vai colocar-se ao lado de «Fado, Futebol e Farpas, uma aventura psicadélica», uma edição de autor que não fica a dever nada a um autor de eleição como Luís Graça.
Na realidade, Luís Graça foi eleito como a esperança mais promissora dos eventuais potenciais escritores das próximas duas décadas.
E agora, senhores espectadores, temos o encontro interrompido. Dá ideia que MRP deixou cair algo. Parece que é um brinco. Vítor Alçada Baptista vem ajudá-la a procurar.
– Ai, que chatice. Era o «I'm in Love With a Pop Star», um brinquinho de narrativa, um conjunto de prosas que pôs Portugal a ler.
Luís Graça dirige-se a Jorge Couto e solicita o adiamento do prelo. Já está no banco a discutir com Rui Brito a próxima edição. O fisioterapeuta do centro de estágio BD Voyeur, Machado-Dias, traz um recado para MRP:
– Pede-se à menina Margarida que se dirija com prontidão ao prontuário. Os seus revisores aguardam-na com carinho.
– O quê? Não tou a pecebê. Que possidonice!
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Primeira imagem do Outono

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O prémio do Camões

Disseram-me ontem que se o júri do «Prémio Camões» alguma vez «centrar as suas discussões» em escritores de Monchique eu terei boas hipóteses de ganhar. Disseram-me também que se as «discussões» forem «centradas» em todo o Algarve então o mais certo será eu não ter sorte nenhuma e a Lídia Jorge limpar aquilo.
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domingo, 21 de setembro de 2008

Dois jogos do Sporting

Ainda não tinha escrito sobre os dois últimos jogos do Sporting. Sobre um deles, o da «Liga dos Campeões – Barcelona 3, Sporting 1 (Tonel) –, a verdade é que fiquei sem vontade de escrever fosse o que fosse. A exibição foi tão má que dificilmente eu acreditaria se tivesse viajado para outro planeta e me contassem no regresso. Do jogo ficou-me mais uma vez a ideia de que Paulo Bento é um treinador pouco inteligente, mesmo limitado, embora eu continue a apreciar a sua dedicação ao trabalho com a equipa (da capacidade de liderança já não falo, pois está claro que aquilo a que foi habituando os adeptos do Sporting em termos de disciplina já não é como dantes – veja-se o tratamento desigual de casos como os de Moutinho e Vukcevic).
Quanto a ontem à noite, para o campeonato – Sporting 2 (Hélder Postiga, Romagnoli), Belenenses 0 –, foi um jogo normal e, por do que isso, banal. Mas se calhar eu é que vi mal; se calhar até o jogo de Barcelona eu vi mal e na volta o Sporting até ganhou por cinco a zero e eu é que não percebi.
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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Talvez um dia um dos meus gatos ganhe o Prémio Nobel da Literatura ou, vá lá, o Grande Prémio do Romance e da Novela da APE

Apesar de eu já ter escrito vários livros, no blog da revista «Ler» o assunto é um dos meus gatos – que em relação a livros o melhor que consegue é dormir em cima deles. Veja-se a parte final do terceiro comentário a um dos posts.
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terça-feira, 16 de setembro de 2008

Vinte e cinco anos a mentir

Coloco a seguir um texto escrito pelo meu amigo António José Santos, vereador da Câmara Municipal de Monchique. Foi lido hoje pelo próprio autor durante a sessão do executivo da câmara, na presença do presidente.
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A história das visitas de um político à casa de Francisco Duarte Correia
Estávamos em Dezembro de 1983 quando um discípulo enviado por Deus, ou pelo Diabo, ainda não se sabe bem, chegou a Monchique e iniciou a sua caminhada por montes e vales, percorrendo todos os lugares do concelho, visitando muitos monchiquenses nas suas humildes habitações. Nesta lufa-lufa, chegou a um lugar denominado Penedo, onde moravam três pessoas, o senhor Francisco Duarte Correia, a sua esposa, dona Margarida, e uma menina deficiente chamada Belinha, a filha do casal.
Quando se apresentou à família, o discípulo disse que era o candidato à Câmara Municipal de Monchique. O senhor Francisco, muito admirado, pois não o conhecia, fez-lhes algumas perguntas para saber as suas afinidades. A dona Margarida, com a sua hospitalidade, convidou o visitante para casa e o marido ofereceu um copo de medronho e umas bolachas, como por ali era costume. Quanto à Belinha, permanecia no seu rude quarto, deitada, pois a deficiência não lhe permitia andar, nem sequer levantar-se da cama.
O senhor Francisco apressou-se a fazer alguns pedidos ao candidato à câmara, nomeadamente o que fazia mais falta, o arranjo da estrada; isto porque, conforme explicava, a menina tinha que ir muitas vezes ao médico e os bombeiros não queriam ir buscá-la devido ao estado em que a estrada se encontrava. Como ainda hoje faz, e sempre fez, o candidato respondeu que se ganhasse as eleições o caminho seria arranjado. Houve um aperto de mão, e de imediato se passou às despedidas.
Quando o viu a entrar no carro de campanha, o senhor Francisco ainda lhe disse: «Mas não se esqueça!...» O senhor Francisco sabia bem a importância de aquela estrada estar em condições.
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Chegamos a Dezembro de 1986, com o senhor Francisco junto à lareira, na sua cozinha fumosa, a comentar com a esposa que estava na altura de o senhor presidente lhes fazer uma visita. As eleições iam ser já no domingo seguinte. Dona Margarida disse-lhe: «Tens razão, Francisco. Não te esqueças de falar da estrada. E bom, mesmo bom, era se nós tivéssemos luz eléctrica, mas isso nunca cá há-de chegar...»
Sexta-feira à tarde. O senhor Francisco, que tinha acabado de regressar a casa com um braçado de lenha, vê aproximar-se um carro. Vem muito devagar, pois a estrada ainda está pior do que três anos antes. Era o presidente da câmara, que ao chegar junto dele lhe deu um abraço. Talvez com isso quisesse agradecer o voto das eleições anteriores, pois desde a primeira visita nunca mais se tinham visto.
O presidente começou a falar com o senhor Francisco e de novo este lhe pediu para mandar arranjar a estrada, falando-lhe pela primeira vez da luz, referindo até que tinha conhecimento de que andavam a electrificar outros lugares.
O presidente-candidato disse que a questão da luz era difícil, mas que as máquinas para arranjar a estrada estariam ali a trabalhar logo a seguir às eleições, para melhorar o acesso à casa. E depois pediu ao senhor Francisco e à dona Margarida para irem votar. O acordo foi selado com apertos de mão, partindo o candidato para nova paragem, sabe-se lá onde.
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Em Dezembro de 1989 a situação repete-se. Está a aproximar-se o dia das eleições e o pensamento do senhor Francisco e da dona Margarida está na estrada para a sua casa e na electricidade, que muitos amigos já tinham. Falam os dois, que desta vez vão pedir ao senhor presidente para mandar que lhes levem a luz ali para casa; da estrada não era preciso falar, pois as máquinas, seis anos depois do primeiro pedido, estavam a arranjá-la (tinham começado havia três dias, mas como chovia muito, tinha sido preciso parar os trabalhos).
Mais uma vez, na sexta-feira antes das eleições, ouve-se na casa do casal Correia o barulho de um carro a chegar. «Quem será?», pergunta a dona Margarida ao senhor Francisco. Este vai abrir a porta e vê logo o presidente da câmara. Manda-o entrar, como era seu costume fazer aos visitantes.
De imediato, o presidente mais uma vez candidato à câmara pergunta se não tem um medronho daquele que bebeu durante a última visita, em 1986. O senhor Francisco apressa-se a ir buscar a preciosa garrafa e oferece um copo bem servido.
Entra a dona Margarida na conversa e não perde tempo a pedir ao presidente da câmara que os ajude a terem luz eléctrica ali em casa. Prontamente o presidente-candidato responde: «Agora estamos a arranjar a estrada, o tempo não tem ajudado, mas segunda-feira fica tudo acabado. Quanto à luz eléctrica, no próximo ano vamos pô-la em Padescas e nessa altura vamos trazer também aqui para a sua casa.»
O senhor Francisco e a dona Margarida pareciam nem acreditar no que estavam a ouvir. À dona Margarida apareceram-lhe as lágrimas nos olhos, tanto que se abraçou ao presidente da câmara («o senhor presidente»), muito comovida, agradecendo muito encarecida a oferta.
Estava a anoitecer. Depois de beber mais um trago, o presidente-candidato e a sua companhia partiram para mais uma acção de campanha, completamente convencidos – «estes estão no papo, já somamos mais dois votos».
A dona Margarida comentou pouco depois com o marido: «Desta vez é que o senhor presidente não nos vai enganar, vamos ter luz aqui na nossa casinha e vamos comprar um frigorífico para podermos ter coisas frescas para dar à nossa Belinha.» Francisco, com a sua frontalidade, contrapôs: «Eu já não acredito nele.»
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Decorria o mês de Dezembro de 1993 e, como de costume, o senhor candidato e também presidente da câmara de Monchique, em período de campanha eleitoral, planeia fazer mais uma visita aos seus fiéis votantes. Pensa, na sua iluminada mente: «Como é que vou este ano enganar aqueles dois? A estrada deve estar uma miséria, porque o último Inverno destruiu tudo, e a luz, bom, quanto à luz não lhes vou dar esse prazer.»
Chegou o momento da visita e, mais uma vez, o senhor Francisco e a dona Margarida imploram que lhes seja arranjada a estrada, e falam na luz que tinha sido prometida («a luz que o senhor prometeu»). A dona Margarida insiste: «Estamos à espera, já passaram quatro anos e estamos à espera de ver cumprida a sua promessa. Será que não merecemos ter luz aqui em casa?»
Prontamente, o presidente respondeu que sim, que mereciam e iam ter luz eléctrica. «Estamos a tratar do projecto, que está quase pronto. No próximo ano a luz vai chegar a vossa casa. Já fizemos um acordo com a EDP e está tudo acertado, a câmara paga uma parte e a EDP paga o restante.»
A dona Margarida ficou convencida, tanto que disse: «Senhor presidente, eu sempre tenho votado em si, e vou outra vez votar. Espero que não se esqueça da sua promessa.» Entretanto, o senhor Francisco meditava nas palavras que tinha acabado de ouvir do presidente-candidato, e lembrando-se de que a sua saúde já não lhe permitia beber um copinho de medronho, daquele que habitualmente servia a quem o visitava.
O candidato, como fazia desde 1983, selou o acordo com um aperto de mão e partiu dali com grande pressa, quase atropelando o Piloto, o cão de caça do senhor Francisco, o que deixou o pobre homem furioso. Aquele cão era as suas pernas para cobrar as perdizes que abatia na época da caça, por ali, nas proximidades de casa.
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Estamos no ano de 1997. O senhor Francisco vê erguerem os primeiros postes na zona de Padescas e comenta com a mulher: «É desta, Margarida!... A luz vem a caminho!» Mal sabiam eles que a sua casa não estava contemplada.
Aguardaram o desenrolar dos trabalhos, mas acabaram por ver que os mesmos chegavam perto dali, mas apenas isso. Não conseguiam compreender a razão de terem ficado de fora. Como era Dezembro e sabiam que ia haver eleições para a câmara, aguardaram a visita do presidente, de novo candidato, para que ele explicasse o que se estava a passar.
Sexta-feira à noite, junto da lareira, o casal fala da luz que tanta falta lhes faz. Nenhum dos dois compreende a atitude do presidente da câmara. A dona Margarida diz: «Francisco, domingo há eleições para a câmara e hoje é sexta-feira, e ele não nos veio visitar, como era hábito.» O senhor Francisco responde: «Ele não teve coragem, e sabia que se aparecesse eu ia zangar-me com ele, por isso não veio.»
No dia seguinte, sábado, véspera das eleições, estavam o senhor Francisco e a Dona Margarida a almoçar quando ouviram chegar um carro. A dona Margarida apressou-se a espreitar; não queria acreditar no que estava a ver, então não é que o senhor presidente afinal sempre tinha vindo visitá-lo…
A dona Margarida mandou-o entrar, mas o senhor Francisco nem se levantou da cadeira. Deram-se os bons-dias e de imediato a dona Margarida perguntou por que razão não tinham tido direito a luz, ao contrário de todos os vizinhos. O presidente-candidato arranjou logo mil desculpas, que ficava muito caro a extensão até ali, que a câmara não tinha dinheiro, que a EDP não queria pagar, que as verbas tinham acabado e por aí adiante. O senhor Francisco comentou: «O senhor sempre nos enganou, e continua, senhor presidente. Não sabe o estado em que se encontra a nossa filha, não percebe que isto é um caso de necessidade. Não podemos ter nada fresco para dar à nossa filha, e a luz que temos é a de um candeeiro a petróleo, e com ela não se vê quase nada. Por que é que não nos ajuda?»
O presidente voltou a falar de as verbas se terem acabado. Mas disse a seguir que estivessem descansados, que ia mandar colocar ali em casa energia solar, que a seguir às eleições tratava logo do assunto. Assim, disse no fim, ficava barato e a câmara ia ajudá-los.
O semhor Francisco e a dona Margarida não ficaram convencidos, mas pensaram que era melhor do que nada. O pobre homem sentia-se enganado, mas a sua hospitalidade era tão grande que lá foi buscar a tal garrafa do tão precioso líquido que sabia que o senhor presidente adorava. Ofereceu-lhe um copinho e ele aceitou. Depois foram as despedidas. Até domingo.
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Dezembro de 2001, a estrada para a casa do senhor Francisco e da dona Margarida está feita numa miséria; é só pedras e pó. A luz eléctrica foi apenas para a vizinhança e a energia solar também não chegou. O senhor Francisco e a dona Margarida estão com mais de 80 anos, a Belinha com mais de 50 (numa cama, com uma deficiência profunda); o fim das suas vidas aproxima-se, o sofrimento foi muito e as ajuda prometidas nunca se concretizaram. Não contando já com nada, apercebiam-se eles próprios de que estavam a chegar ao fim.
Só que… Numa sexta-feira, antes das eleições, alguém mal intencionado aparece para lhes pedir o voto. Era o presidente, mais uma vez candidato, e que até estava convencido de que o senhor Francisco e a dona Margarida já tinham energia solar. Afinal, até a energia solar era apenas um sonho.
O senhor Francisco e a dona Margarida já nem sequer pedem nada ao candidato, por um lado porque já não acreditam nele, por outro por terem consciência de que estão com a saúde muito debilitada, que a Belinha está cada vez pior, que estão a ficar sem forças para a tirarem da cama.
É o fim da tarde dessa sexta-feira. O candidato de sempre cumprimenta a humilde família e promete mandar colocar energia solar na sua casa, esquecendo-se de que já tinha feito essa promessa quatro anos antes.
O senhor Francisco, muito zangado, diz: «Eu já não acredito em si, e nem sequer vou votar. Há quatro anos também o senhor, aqui mesmo, fez essa promessa. Ou já se esqueceu?!»
O candidato fica um pouco embaraçado, desfaz-se em desculpas e acaba por dizer: Desta vez é que é, a seguir às eleições vem logo cá alguém pôr os painéis solares e fazer a instalação.»
A dona Margarida, visivelmente doente, diz que já não estará ali para conhecer isso, e depois desfaz-se em lágrimas.
Apercebendo-se da grande injustiça que tinha cometido, o presidente-candidato fica uns momentos em silêncio. Depois dá as boas-tardes e despede-se, esquecendo-se de propósito de pedir o voto; ele sabia, no seu íntimo, que ali já não ir conseguir ter nenhum voto.
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Em Outubro de 2005, o senhor Francisco teve conhecimento de que o presidente era de novo candidato à câmara de Monchique. Mas não acreditava que este lhe fosse pedir mais uma vez o voto; como sempre desde 1983 não tinha cumprido as promessas e de certeza que os seus informadores lhe tinham dito que a dona Margarida e a Belinha tinham entretanto falecido. O presidente-candidato não apareceu mesmo.
Em Abril de 2008, faleceu o senhor Francisco.
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Outubro de 2009 será o mês das novas eleições. O presidente-candidato não irá pela segunda vez ao lugar do Penedo, na freguesia de Marmelete, concelho de Monchique.
O senhor Francisco Duarte Correia – tal como a mulher, a dona Margarida, e a filha dos dois, a Belinha – já partiu. Um dia, um qualquer dia do futuro, os três hão-de deixar o Céu, apenas por algumas horas, e farão uma viagem até um lugar de onde poderão avistar as portas do Inferno. Assim que virem o presidente perder-se por elas adentro, regressarão ao sítio onde encontraram o descanso eterno.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O que vou escrevendo

Um pouco do que vou escrevendo…
Senti um pequeno arrepio ao pensar nisso. Teria eu sido confundido com a morte?
(imagem do cenário aqui)
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Os Dias do Blog – 6

Sexta crónica sobre blogs da série que fiz mensalmente entre finais de 2003 e meados de 2007. Esta é a crónica de Maio de 2004. Início aqui.
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Essa Maria Filomena Mónica
(Maio de 2004)
Eça de Queirós e Santana Lopes metidos de repente nos blogs. Não porque se lembrassem os contribuintes destes novos espaços de ir buscar as intemporais opiniões do escritor sobre a nossa política e, sobretudo, os nossos políticos, fazendo do presidente da câmara de Lisboa o manequim para alombar com os capotes que Eça descreveu, mas porque o presidente arranjou maneira de se misturar com o autor de «Os Maias». O assunto dos blogs, então, o hotel lisboeta mandado comprar por Santana Lopes às três pancadas para aí instalar uma Casa Eça de Queirós.
Vejamos o «O Blog do Alex», a 24 de Março, data em que no jornal «Público» Maria Filomena Mónica disse de sua justiça sobre a decisão de Santana Lopes: «Santana Lopes comprou uma casa qualquer para instalar a Casa Eça de Queirós! Ora: 1º - A casa nada tem a ver com ele [ela, Eça, já se vê, não Santana, se bem que a casa, ou melhor, o hotel, também não tenha muito a ver com Santana]; 2º - Ele sempre viveu em casas e quartos alugados! [ainda e sempre ele, Eça, claro]; 3º - Os papéis pessoais de Eça estão no fundo do mar, quando o navio Santo André ao regressar da Exposição Universal de Paris afundou em 24 de Janeiro de 1901; 4º - A sua biblioteca foi roubada em 1911 quando a viúva se encontrava em Vigo! [seria desnecessário referir sua, de Eça, a ver pelo ano; além do mais, não se sabe se Santana tem biblioteca, e em caso de não ter se é porque alguém lha roubou]; 5º - O seu espólio está na Biblioteca Nacional, muito bem tratado e não vai sair de lá! Para quê esta casa? [espólio de Eça, não é de certeza o de Santana].» O autor do blog refere que os seus cinco tópicos foram adaptados do artigo de Maria Filomena Mónica; já o que está entre parênteses rectos são acrescentos meus.
Ainda no mesmo dia, o blog «O Vilacondense»... «Infelizmente não está on-line o superior artigo de Maria Filomena Mónica. Chama-se ‘Uma casa vazia para Eça de Queirós’ e glosa com a intenção de Pedro Santana Lopes em criar uma casa para ‘reconstituições da memória queiroziana’. Ora, segundo esta autora e estudiosa da obra daquele nome maior da literatura lusa, não há espólio de Eça de Queirós. Ou seja, não há conteúdo para ‘encher’ a moradia adquirida por PSL. E porquê? Porque os móveis e o arquivo que a viúva enviou de Londres estão no fundo do mar, pois o barco que os transportava afundou-se. Depois, porque a biblioteca do escritor alegadamente nascido na Póvoa de Varzim foi roubada pelo genro de uma das criadas da casa. Restam, sim, algumas edições de obras de autores estrangeiros, sem grande relevo. Conclui Maria Filomena Mónica que ‘a ideia de que a futura casa pudesse vir a albergar o espólio do escritor é um absurdo’, pelo que ‘a Câmara de Lisboa gastou dinheiro (e tem de nos dizer quanto) com a aquisição de um prédio onde apenas poderá exibir’ a já escolhida directora, Ana Nascimento Piedade’. Depois dos sempre recordados concertos para violino de Chopin, parece que o nosso PSL ainda não se apercebeu de que o ditado ‘quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?’ lhe assenta que nem uma luva...» Dos comentários, um destaque [João Ricardo]: «Essa do ‘alegadamente’ nascido na Póvoa de Varzim é um achado. Não sabia que a rivalidade entre Vila do Conde e a Póvoa de Varzim era assim tão grande...»
Ainda 24 de Março, o blog «Placard», referindo o artigo de Maria Filomena Mónica, «acrescenta»: «Para Santana Lopes é perfeitamente indiferente que o hotel Bragança seja na Rua do Alecrim ou na Rua Vítor Cordon, tanto mais que ele não era o presidente da câmara e, portanto, não é responsável. Mesmo que se não deva divulgar a idade de ninguém, ele nem sequer tinha nascido. Depois as coisas ocorrem-lhe sempre com algum atraso, tanto assim que só deu por ter sido o responsável pela cultura do país passada uma dúzia de anos e não se sabe depois de quantas passagens pelas docas. É sempre uma concessão da sua parte dedicar um espaço à instalação de uma Casa Eça de Queirós, uma vez que não o conheceu e não espera tê-lo como cliente do novo casino em cuja construção está empenhado, a bem da redução dos aviltantes níveis de pobreza no concelho e da erradicação da toxicodependência no Intendente.» Mais... «A Dra. Ana Piedade foi seleccionada seguramente em resultado de concurso público e no mais escrupuloso respeito pelas transparentes normas que a autarquia tem em vigor, embora com carácter reservado por questões de segurança. Depois, como a própria defende, o que é relevante é o facto de o edifício se situar numa zona a transbordar de referências queirozianas. Sendo assim, poderia o mesmo ter sido adquirido, com igual e inatacável lógica, no Porto, na Póvoa de Varzim ou mesmo em Havana. Nos Campos Elíseos não, que o preço por metro quadrado está pela hora da morte. E como é o próprio presidente da câmara a decidir ‘estas coisas’, muita sorte houve em que o mesmo, pura e simplesmente, não tivesse decidido que Eça nem sequer existiu porque dele se não fala no Kremlin.»
Até parece que a polémica foi desencadeada pelo artigo de Maria Filomena Mónica, mas não. Mudando de dia, para três de Abril, vejamos o blog «Prazer Inculto»: «O suplemento humorístico do ‘Público’, ‘Inimigo P.’ está cada vez melhor. As notícias inventadas constituem, frequentemente, tiros mais certeiros do que as notícias que o ‘corpo principal’ se atreve a tocar. Entre várias, esta semana, destaco a que relata a vontade do presidente da C. de Lisboa em resolver o diferendo que obrigou Eça de Queirós a ir viver para uma ilha das Canárias por causa de um secretário de estado do PSD.» Eça e Santana, apenas. Só que depois... «O melhor parágrafo é o que refere a forma como Maria Filomena Mónica teria recebido os pedidos de informação de S. Lopes a propósito da actual vida do escritor de ‘Os Maias’: ‘O quê?! Mas o senhor presidente está a falar de quê?’.»
Nem assim. Talvez da polémica nunca se consiga separar o nome de Maria Filomena Mónica. Mérito dela. E de Eça, que lhe deu matéria para escrever páginas fascinantes.
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Blogs consultados
http://oblogdoalex.blogspot.com/, com textos assinados por Alex;
http://ovilacondense.blogspot.com/, com textos assinados por «Dupond» e «Dupont»;
http://placard.weblog.com.pt/, com textos assinados por LFV;
http://prazer_inculto.blogspot.com/, mantido por Possidónio Cachapa.
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domingo, 14 de setembro de 2008

O que vou escrevendo

Um pouco do que vou escrevendo…
Voltei à azenha e guardei a picareta, logo na casa de entrada. Encostei-a à mesa de saltos do Rasputine a preto e branco.
(imagem do cenário aqui)
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sábado, 13 de setembro de 2008

Uma dedicatória que ninguém se importaria de ter

Ainda por cima num livro notável – ver aqui.
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Uma crónica do Luís Graça (5)

Quinta de uma série de crónicas do Luís Graça. A primeira pode ser lida aqui, a segunda aqui, a terceira aqui e a quarta aqui.
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Setembro chega sempre à traição
Pequim esfumou-se. Os Jogos Olímpicos são passado. Roger Federer ganhou o seu décimo terceiro torneio do Grand Slam, em Nova Iorque. Na RTP2 passa um documentário sobre um dos saltadores suicidas do Empire State Building.
O estômago aperta-se e vou para a rua passear. No Galeto encontro o José Luís Peixoto e fico a colocar a conversa em dia, encostado ao parapeito da esplanada. Como Romeu e Julieta. Ele de t-shirt preta de Raul Seixas, eu de t-shirt branca de Porto Seguro. Ele de tatuagens nos braços, eu de cicatrizes.
Setembro chega sempre à traição, para nos lembrar dos amores que não surgiram em Agosto, dos bichinhos que andam no nosso quarto, emigrados dos livros para baixo dos tapetes cobertos de DVD sortidos, num deslizar de estância de esqui. Sem controlo, com fracturas emocionais.
Agarramos num CD de Dotschy Reinhardt e bolinamos uma crónica a pedido da Comissão de Regatas. Pianamos as teclas. Como nos confessou John Simenon, filho de Georges Simenon, num fim de tarde do Franco-Português, a propósito do autor dos livros do Comissário Maigret. Era assim que o seu pai escrevia um policial num fim-de-semana. A pianar as teclas. Era fácil, barato e dava milhões.
Dotschy vai-nos sussurrando promessas. Na ausência dos seus seios, vamos acariciando as teclas e um discurso mais ou menos coerente vai-se formando à frente dos nossos olhos. Clicamos pela quarta vez no primeiro tema «Gai Rath». É uma massagem para a alma, apesar de não percebermos patavina: «Gai Rath hi da sterni gar dur...»
As cartas começaram a chegar. Vêm da Cornucópia a anunciar Beatriz Batarda. Vêm do Franco-Português. Vêm da Casa Fernando Pessoa.
Juramos fidelidade. Prometemos não faltar. Colocamos as datas e os acontecimentos na agenda, em códigos de duas ou três palavras, com a hora à frente.
Para trás ficou o passeio nocturno de uma hora. Com raide-surpresa à Rua Flores do Lima. O Quarteto está à venda. Há ainda dois cartazes de filmes cá fora. «O Bom Alemão» deixa-nos em testamento o rosto de Cate Blanchett.
Mais abaixo, a Casa de Tomar lembra bolas vermelhas que teimosamente me colocam na mente a falta de aptidão para o snooker. Aqueles jogos à pressa, para não perder o início dos filmes...
O dia, entretanto, nasceu.
(na foto, Dotschy Reinhardt)
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Talvez não devesse escrever isto…

… mas o Chávez, além de petróleo, tem piada.
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Último pormenor da tarde

Outros pormenores aqui, aqui e aqui.
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«Stava yo en la mi tierra…»

Publico a seguir, na íntegra, o artigo de que falei aqui e que foi escrito pelo meu amigo Artur Fernandes (na foto). O Artur é natural de Sendim, daí ter escrito em sendinês.

La proua de ser sendinês
Stava yo en la mi tierra – Sendim, tierra de scobas, piornos e tumilhos –, que queda alhie nun planalto an pi del Douro, i apus-m’a tenir l’ideia de screbir la mi cronica an sendinês, la lhengua que yau ampecei a falar i num quiro ser agabaçola, era la lhengua de mis abós i de mi may. An pecanho era la lhengua que yo falaba i l grabe so an Lisboa lo amprendi.
Hai quien dia que Sendim bino d’ende Ancho de Mondin. Que muraba puli un tal mondino i apuis Mondin dou Sendim mas esto nun será cirto porque nun hai paepls que çtemunhan esso. En l’Ancho sta uma olibeira que ye um toco bilho que queda alhá nuã lata dum Barnabei. Dizen q’ye la olibeira mais bilha de Sendim. Nun hai acá un cuonto i un dito que nun amente neilha.
En la rue de Stº Cristo hai uã capelica mui guapa que tem adentro un letreiro onde se leien cousas que firen l coração. Quaige todas las pecissones paran nesta capelica.
L’home mais lembrado plus sendineses ye tiu Manun. Fzia spantalhos que parecian uã cousa de l’outro mundo. Muitos fúrum scatchados quando andubirun a arrincar la binha mas algun quedou a guardar l termo.
ls sendineses son balients i hablidosos, son diabos mui grandes, anchos e n’l planalto todos tenen que ber con els.
Tenemos l poço de l’anferno que queda na ribeira de las Lagas antre ls molinos. Hoija yá stá todo antupido cun broça, murgaça i arena, mas dizen que detrás butaban las burras bilhas dalhi abaixo sin tener pena deilhas.
I cumo hai las fraugas, hai lugares mui ruins como l piquete de l diabo que queda an zelado de San Paulo caras al riu. Cul bico mui aguçado parece un speto, pus ten par’ ende sessente metros d’ altura i nun sei quanto d’ancho, mas hai otros piquetes mui afamados en las fraugas del Douro.
L que nun falta en las fraugas son peinhas. Hai uma que queda n’l Pilo. Te uã peinha que se bei de la strada i a longe parece un roque. Stá toda uca i cheina de buracos, apuis l’ aire faç remolino dentro deilha até mete mido.
La lhengua qu’ls sendinenes falan antre elhes no ye grave nin mirandês. L sendinês ye una lhengua que l’outros nun la intenden an bias de no tener l tu.
Un sendinês se me bê diz: «Ah Artur il que faç?»
L’s mirandeses dizen: «Ah Artur tu que faces?» Mas hay outras.
Ls rapazotes de l’outras tierras dizen: «Sendinês mala rês/ Cun una agulha faz três/ Cun l sapato faz quatro/ I arregunha como un gato.»
Mas l sendines i buna rês i gente mui hunrada, d’uã bila tan galana cumo num bie aoutra, i com uã lhengua tchapada q’ye es armana de la mirandesa mas sin scrita nin regras gramaticals, mas yau sou algoç i agabarrião i quiro que la lhengua de mius abós seya uficializada.

Artur Fernandes (Moma), Agusto 2008
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Sem palavras

Provavelmente sou o único a nada dizer sobre a derrota de quarta à noite com a Dinamarca (a Dina marca, ou marcou, como ouvi a alguém). Mas a verdade é que não tenho palavras.
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

António Souto – Crónica (3)

Depois de duas crónicas sobre Saramago (esta e esta), uma terceira. O António Souto publica as crónicas no jornal da sua terra («Jornal D’Angeja»); esta é de Agosto.
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Entre espólios e esculturas
Continua a haver hoje uma vontade enorme de partir e de regressar. Exílio forçado ou desejado, pouco importa. Aventuras e desventuras. Está-nos na alma nossa de gente dada a migrar. E connosco vão e vêm as coisas, em vida ou em morte. Agora parece estar na moda, mais do que antes, mandá-las para lugares de cultura descentralizada, para lugares bons, de boas e acolhedoras condições, espaços criados ou a criar, com patronos cimeiros.
Falamos de livros, de espólios literários, de acervos de escritores e intelectuais que, por deliberação própria ou alheia, são doados a bibliotecas municipais. A leitura democratiza-se, chega onde, em muitos casos, há muito deveria ter chegado, e por esta via a baixo custo para as autarquias. Uma espécie de mecenato.
José Cardoso Pires (falecido) – mais de três mil livros, um quadro e a máquina de escrever do escritor vão para a futura Biblioteca Municipal de Vila de Rei (Castelo Branco) que, quando inaugurada, passará a ostentar o seu nome. Segundo declarações da sua filha, é «um dever deixar para quem queira estudar e apreciar parte da sua obra na biblioteca da sua terra natal».
Eduardo Prado Coelho (falecido) – mais de seis mil volumes doados à Câmara Municipal de Famalicão para integrarem a Biblioteca Camilo Castelo Branco, sendo depositados numa sala (inaugurada para o efeito) com o nome deste escritor e intelectual.
António Lobo Antunes – todo o acervo literário vai para as antigas instalações da Escola Primária do Almonda, em Torres Novas (em regime de comodato). Ali será criada a Casa da Literatura. Em troca, terá o escritor direito a uma casinha para férias, um repouso bem-vindo para a arte da escrita. Da ligação do escritor a este concelho não reza a história, mas sabemos que ali reside o seu irmão, Pedro Lobo Antunes, vereador no executivo camarário, com pelouros atribuídos.
Marcelo Rebelo de Sousa – dezenas ou centenas de livros seguem regularmente para a Biblioteca Municipal de Celorico de Basto (Biblioteca Prof. Dr. Marcelo Rebelo de Sousa), que acumula já cerca de cento e vinte mil documentos (essencialmente livros, manuscritos e quadros), um espólio de fazer inveja a muitas das bibliotecas deste país. Homem dos sete ofícios (professor universitário, político na reserva, comentador…), foi em tempos presidente da Assembleia Municipal deste concelho do distrito de Braga.
A memória literária, entretanto, estará sempre no lugar certo, seja em que parte for, havendo leitores e estudiosos que a não deixem morrer.

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Há descobertas admiráveis. Já neste espaço sublinhei a arte entusiástica cultivada pelo meu amigo Víctor Brotas, médico em Lisboa, no Hospital dos Capuchos. A partir de troncos secos de árvores citadinas, matéria bruta e grosseira, dá-lhes forma e poesia, contornos belos e expressivos, como quem trabalha corpos e lhes desvenda a alma. Entre a medicina e a escultura é tudo uma questão de tempo (pouco) e de apego (muito), uma dedicação ilimitada ao cerne dos seres.
Este mês, numa incursão ao norte da Galiza, quis o destino que poisasse na aldeia de Baamonde (Lugo). Quase sem querer, fui levado a conhecer a Casa-Museu de Víctor Corral. Víctor também, este, devoto como o outro da fibra natural das árvores.
Nascido aqui em 1937, Víctor Corral (escultor, fotógrafo, pintor e poeta) «estudou em Artes e Ofícios da Corunha com o escultor José Juan e em Barcelona com Montagut. Depois de uma estada em Barcelona, onde teve oficina e expôs com notável êxito, instalou-se definitivamente na sua terra natal. Expôs em Lugo, A Corunha, Ourense, Santiago, Vigo, Ferrol… (…) Tem obra nos museus de Chicago, Nova Iorque, Lugo, Museu Arqueológico da Corunha, Casa-Museu de Rosalía em Padrón… Mas, sobretudo, tem uma Casa-Museu para a sua obra, que é simultaneamente a sua oficina de artista e que abre de par em par a todos os amantes da arte».
Foi isso mesmo que fez, era sábado, hora de almoço e a porta aberta. Passeámos pelo jardim (parte integrante do museu) e entrámos na primeira sala da sua própria casa. A hospitalidade acontecia a par com a grandeza das esculturas meticulosamente expostas. A madeira enchia o espaço em recortes figurativos. Cada peça um símbolo, uma denúncia, um apelo, um grito. Fora, por entre a relva do jardim, a madeira estava igualmente presente, mas a pedra e as pedras (algumas raras) ocupavam relevo. Tudo era fonte de inspiração para o espírito e para a matéria. A separar o interior do exterior apenas a erosão do tempo.
Ficou, à partida, a promessa do regresso, com vagar para os olhos e para as palavras do Víctor Corral. Disto há-de saber o meu amigo médico Víctor Brotas, e há-de gostar.
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Imagem: pormenor de um retrato a óleo de José Cardoso Pires, feito por Júlio Pomar em 1954 (o retrato está na contracapa do livro «Histórias de Amor»), publicado por estes dias pelas Edições Nelson de Matos).
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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Mais um pormenor da tarde

Outros pormenores aqui e aqui.
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Uma crónica do Luís Graça (4)

Quarta de uma série de crónicas do Luís Graça. A primeira pode ser lida aqui, a segunda aqui e a terceira aqui.

Os matraquilhos e a eternidade
Não há tecnologia que consiga perturbar a noção de eternidade que uma mesa de matraquilhos implica. Os matraquilhos existem porque são a representação perfeita da competição. Mesmo quem não gosta de futebol aprecia um bom jogo de matraquilhos, vulgo «matrecos», ou «bonecos».
Poder-se-á pensar que os matraquilhos rimam com tasca, copos de tinto a granel e jogos de bisca lambida. Nada mais errado. Os matraquilhos rimam com tudo isso, mas são também fonte de deleite nos corredores austeros de uma universidade ou em casa faustosa de «jet-set». Os matraquilhos, enquanto reprodução do futebol, causam unanimidade.
Os matraquilhos são uma espécie de pinturas rupestres. Traduzem a pré-história do futebol de mesa, mas ao mesmo tempo possuem um espírito fraterno que eleva o ser humano ao êxtase mais profundo. Que se saiba, nunca um credo religioso, filosófico ou político se pronunciou contra os matraquilhos. Nunca se descortinaram efeitos perversos para a saúde numa partida de matraquilhos. Jocosamente, diz-se mesmo que desenvolvem a acuidade visual, os reflexos e a coordenação motora. Ao mesmo tempo que modelam os bíceps.
Os fundamentalistas esquecem, no entanto, que os matraquilhos provocam calos na palma das mãos e que são extremamente ruidosos. Mas é para isso mesmo que servem os matraquilhos: para afirmar a virilidade do Ser, mesmo que toda a gente ache muito bem que as senhoras pratiquem este desporto/ jogo de mesa.
Os matraquilhos também fazem transpirar das axilas, mas é para isso mesmo que servem: para que as glândulas sudoríparas gritem a viva voz a alegria de se expressarem livremente. Um jogo de matraquilhos que não misture sabiamente os odores do Paco Rabanne com as fragrâncias do suor das sete da tarde não merece ser cognominado de matraquilhos. Será algo aproximado, mas falso.
Claro que é irritante ter as mãos sujas de óleo dos matraquilhos. Nesse sentido, é mais um jogo para mecânicos do que para cirurgiões; mais uma actividade para culturistas do que para engenheiros informáticos, mais um passatempo para moçoila comprometida com o cultivo do campo do que para uma esteticista/ nutricionista. Não nos esqueçamos, todavia, da questão subsidiária: para que serve a pedra-pomes? As mãos podem conspurcar-se, mas é muito mais importante ter a alma limpa. Esta poderia ser mesmo a divisa de todos os matraquilhistas: «Mãos sujas, alma limpa».
Que crédito nos poderá merecer um jogador sem calos, os dedos imaculados, a expressão apática de um ente sem paixões de qualquer espécie? O verdadeiro atleta dos matraquilhos (atleta, sim, porque aos matraquilhos não se joga sentado) revela no olhar o espírito predador da águia, o calculismo de um xadrezista sem pudor, a malícia de um lince com hienas na família, a astúcia de um felino em ninho de cucos.
Os matraquilhos são mais do que um jogo, são um estado de alma. Naqueles quatro varões joga-se o destino da Humanidade. Aprende-se de um fôlego as regras da confraternização e da sobrevivência: bola na defesa, é preciso levantar os pezinhos dos médios e avançados; bola do outro lado, urge ter o guarda-redes desencontrado com os dois defesas.
Tacticamente, os matraquilhos são como a vida: atrás, um guarda-redes desamparado (as surpresas que o destino nos revela); à sua frente, um par de defesas cheios de responsabilidade e frequentemente desapoiados (as traições); no meio-campo, cinco homens lado-a-lado, prontos para o que der e vier (a luta quotidiana pelo pãozinho); à frente, três heróis de peito feito às balas, aptos para recolher os louros da vitória (e muitas vezes não sabem parar uma bola vinda dos defesas).
Quando a bola pára nos pés da linha avançada, não nos podemos impedir de pensar: chegou a hora. Porém, nem todos os avançados são bafejados com a perícia que transforma uma bola parada num golo inevitável, num «ballet» perverso que dura uma fracção de segundo e consegue criar no feliz concretizador a ilusão de ser um D. Juan das balizas.
Os matraquilhos são uma arte clemente: nunca ninguém foi parar a um divã de psicanalista por não ter jeito para os matraquilhos. É uma coisa que se aceita com a mesma afabilidade de um pôr-do-sol. E nunca nenhum «nabo» recolheu um abaixo-assinado para acabar com os matraquilhos. Eles são imunes a jogos de computador, Segas, Playstation, Stationwagon, monovolumes, pastilhas elásticas e acid jazz.
Senhores e senhoras, os matraquilhos são eternos.
Com os varões empenados, com as pernas da mesa desequilibradas e cheias de caruncho, com as salas sem luz, com o tabaco em valsas loucas a rodopiar nos salões, com o vernáculo empenhado de dançarina de cabaret apaixonada pelo tratador de elefantes do circo de Natal, com tudo isto e tudo o mais que se dignem imaginar, os matraquilhos são mesmo eternos.
A única coisa estranha é não ter havido ainda uma tese de doutoramento intitulada «A influência dos matraquilhos no desenvolvimento motor da criança». Ou um Action Man a jogar matraquilhos, enquanto a Barbie dá banho aos putos.
Aposto que nunca tinham pensado nisto.
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terça-feira, 9 de setembro de 2008

O que vou escrevendo

Um pouco do que vou escrevendo…
Uma invasão de pirilampos vermelhos? Ou um acontecimento que fizesse com que todos ocorressem ali com luzes que apenas colocavam em ocasiões especiais?
(imagem do cenário aqui)
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segunda-feira, 8 de setembro de 2008

domingo, 7 de setembro de 2008

Os Dias do Blog – 5

Quinta crónica sobre blogs da série que fiz mensalmente entre finais de 2003 e meados de 2007. Esta é a crónica de Abril de 2004. Início aqui.
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O que lêem alguns portugueses
(Abril de 2004)
O mundo dos blogs, que dá espaço a tantas confissões, também haveria de trazer à luz do dia a informação sobre aquilo que se vai lendo, ou melhor, aquilo que aqueles que o alimentam (esse mundo) vão lendo. Não será propriamente uma originalidade, que isso de mostrar o que se vai lendo já fazem, e desde há muito tempo, jornais, rádios e até, imagine-se, televisões. Vamos então às confissões...
Para abrir, referência a um peso pesado, «Equador». Quinta-feira, 12 de Fevereiro, Manuel Jorge Marmelo (blog «Apenas um pouco tarde»): «Li, finalmente, ‘Equador’ (...) Não tenho muito a dizer, excepto que vivi o livro com prazer, mais rapidamente do que as suas 500 e tal páginas faziam supor. Não sei se MST prestou um serviço à literatura portuguesa, à medida do umbigo do próprio, mas sei que está ali uma boa história, que acumula o predicado de ser bem contada. Discordo, porém, da opinião de uma amiga, segundo a qual MST resistiu à tentação do happy end - a morte pode muito bem ser um happy end
Depois, Fernando Assis Pacheco, referência um dia antes, a 11, a cargo de Paulo Moreiras (autor de um dos grandes romances que a literatura portuguesa conseguiu apresentar nos últimos anos, «A Demanda de D. Fuas Bragatela»), no seu blog «O elogio da ginga». Moreiras, especialista na matéria (da ginja, com livro publicado e tudo), escreveu: «Ao regressar a ‘Trabalhos e Paixões de Benito Prada’, de Fernando Assis Pacheco, leitura de outros tempos, voltei a deliciar-me com aquela sátira mordaz e fina de um grande escritor. Agora mais maduro, consigo encontrar nas palavras e nas frases de Assis Pacheco um eco que anteriormente me era esquivo. Para rematar, encontro num belo pedaço de prosa, a ginja de que tanto gosto – ‘... o qual trouxera um outro que falava muito menos e ingurgitava álcoois de todos os sabores, tanto que depois queixou-se por gestos da ginja com mofo e da orquestra antiquada, cuspiu um caroço para longe, pediu mais um cálice...’».
Voltando ao dia 12, uma visita ao «Abrupto», onde há indícios de que Pacheco Pereira lê Kafka e Simone de Beauvoir. «Hoje, há oitenta e nove anos, Kafka queixava-se que as discussões da senhoria com um vizinho não o deixavam escrever. ‘Desespero absoluto! Será que sou perseguido por senhorias que não me deixam trabalhar?’ pergunta Kafka. Simone de Beauvoir, pelo contrário, não tinha que aturar senhorias. Passou este dia, há cinquenta e sete anos, a barafustar contra os costumes americanos. Beauvoir estava em Nova Iorque e irritava-se com as montras preparadas para o Dia de S. Valentim, cheias de coraçõezinhos. Os americanos ‘gastam o tempo’ com isto, anotou irritada. Ainda mais a irritava o costume de cantar ‘Parabéns a você’ nos locais públicos. Estou com ela.»
Ainda no «Abrupto, conselhos de um visitante, a 11 (um post de Francisco de Sousa Fialho): «O Pacheco Pereira chama a atenção para a ‘sensibilidade contemporânea (…), que será muito diferente (ou distante) da sensibilidade de outros tempos’. Talvez o seja. Ou talvez sejam outras coisas que mudaram, mas não a sensibilidade. Ou talvez seja sobre a noção de ‘sensibilidade’ que se alimente o equívoco. Concordo plenamente que há hoje um apetite renovado pelos clássicos, que não é apenas uma moda mas talvez a intuição de que algures se perdeu o fio ou se emaranhou o novelo e que vale a pena recapitular o percurso para destrinçar os nós que entretanto nos confundiram. A este propósito, ainda que aparentemente sem propósito nenhum, recomendo-lhe vivamente um livro recente: ‘Reformation’, de Diarmaid MacCulloch (Penguin Books).»
Ainda na quarta-feira, 11 de Fevereiro, mas já no blog «Meia livraria», que tem uma frase de apresentação de Fernando Pessoa, «Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/ No mínimo que fazes.» O assunto, Paulo Coelho. Cláudio, que alimenta o blog, escreve, sob o título «Paulo, o Coelho»: «Gente que lê os livros do Paulo Coelho diz frases como: ‘Hades ler o novo do Paulo Coelho! Comprei o meu na Shell, é espectacular!’ ou ‘Vocêses não gostam de Paulo Coelho é porque não percebem, aquilo tem um segundo sentido. Leiam e hadem ver!’ Alvitro até um postulado: Nem todos os que dizem hades sabem ler, mas todos os que lêm Paulo Coelho dizem hades. Espero que gostem do esotérico pormenor do itálico em Coelho. Tem um segundo sentido.» Como não se diz nada sobre outros itálicos (em «hadem», por exemplo – mas não em «lêm»), aqui neste texto ficou só mesmo o «Coelho» em itálico.
Outro blog, «Bomba inteligente», de Carla Hilário de Almeida Quevedo. Recuo até 8 de Fevereiro: «Já que o Marcelo Rebelo de Sousa não falou de uma das edições portuguesas mais importantes do ano, falo eu. Trata-se da tradução das ‘Tragédias’ de Sófocles por Maria Helena da Rocha Pereira, Maria do Céu Fialho e José Ribeiro Ferreira, da editora Minerva de Coimbra. Uma beleza de livro. A seguir a esta maravilha, só mesmo a tradução da ‘Ilíada’ do Frederico Lourenço.» No dia seguinte, e depois de tão elevadas leituras, piadas de argentinos (não um livro, mas piadas mesmo). Duas, para amostra – «Jogam as selecções do Brasil e da Argentina. O jogo está empatado. O comentador argentino diz: ‘Brasil zero golos, Argentina zero golaaaaçoooos!’»; «Dois argentinos estão no estrangeiro, prestes a entrar numa festa. Um diz: ‘E se dissermos que somos argentinos?’ Diz o outro: ‘Nã... que se lixem.’» Piadas de argentinos, e eu com um romance escrito por um argentino nos meus planos de leitura mais imediatos. Veremos no que dá…
Para acabar, uma referência a um livro escrito pelo autor do primeiro blog. Recuando mais, até 2 de Fevereiro, e no «Aviz, de Francisco José Viegas, que não poderia faltar num «inquérito» destes. «Estou a ler e a divertir-me. Pessoa aparece no meio de um vendaval semeado por Manuel Jorge Marmelo. O livro tem o título ‘Os Fantasma de Pessoa’, e a colecção é a ‘Literatura ou Morte’, da Asa.» Pode ser uma boa alternativa, se me chatear com o argentino.
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Blogs consultados
http://www.marmelo.blogspot.com/, mantido por Manuel Jorge Marmelo;
http://www.elogiodaginja.blogspot.com/, mantido por Paulo Moreiras;
http://www.abrupto.blogspot.com/, mantido por José Pacheco Pereira;
http://www.meialivraria.blogspot.com/, com textos assinados por Cláudio;
http://www.bomba-inteligente.blogspot.com/, mantido por Carla Hilário de Almeida Quevedo;
http://www.aviz.blogspot.com/, mantido por Francisco José Viegas.
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A mente por uns instantes invadida

Coloco a seguir o que o Luís Graça deixou ficar na caixa de comentários do post sobre a capa de Setembro da revista «Ler» (Ler Blog»). Uma entrevista a Eduardo Lourenço, como a revista fez (Carlos Vaz Marques), mas admitindo que a mente do ensaísta, não sei como, foi por uns instantes invadida pela de outra pessoa (nota: editei o texto, mas muito à pressa).
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Comentário:
De Luís Graça a 6 de Setembro de 2008 às 06:24
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SE O ESPÍRITO DE MARGARIDA REBELO PINTO POSSUÍSSE EDUARDO LOURENÇO

A LER combinou a entrevista para as 17 horas, no terraço do CCB, a pedido de Eduardo Lourenço (EL), porque «as 17 horas do terraço do CCB são as melhores para ver o transcendente reflexo do sol na prata dorsal das composições da CP».
Eduardo Lourenço chegou com 20 minutos de atraso, porque tinha andado aos saldos nas camisas de manga curta, no Rosa & Teixeira.

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EL – Têm preços muito em conta. Em França as camisas já não são o que eram. Mesmo o povo, tradicionalmente descamisado – e até os sans-coulottes – usa um tipo de camisas globalizadas. Portugal será ainda e sempre a minha terra, apesar de eu estar «avanceado» pelas gálias.
CARLOS VAZ MARQUES (CVM) – Gostou de ter sido convidado para dar uma entrevista à LER?
EL – Não sou elistista, apesar de ser tido como tal. O meu discurso é facilmente compreensível para qualquer mero doutorado em Física Quântica. Por isso, falar para a LER merece-me um enorme respeito. É tão respeitoso estar na capa da LER como na da Selecções do Reader's Digest. Ou na CARAS, para referir a minha revista literária favorita.
CVM – Ouvi dizer que ficou um pouco aborrecido pelo facto de os dois primeiros números da LER terem tido António Lobo Antunes e José Saramago na capa...
EL – Quem disse isso?
Eduardo Lourenço colocou os óculos escuros Ray-Ban Wings e tamborilou nervosamente com os dedos na sua long drink, com um pequeno sombrero a abanar guerrilheiramente na brisa da tarde.
Um longo silêncio. Após uma pausa, Eduardo Lourenço levantou-se, puxou as calças para cima, sentou-se, deu um pequeno gole na sua bebida, tirou os óculos escuros e...
EL – Ó Carlos, isso é muito injusto... Eu respeito toda a gente. Mesmo romancistas que escrevem aos solavancos como o Toni ou que usam pontuação desgarrada, como o Zé. Nem toda a gente pode ser a Margarida Rebelo Pinto. O facto de venderem muito menos que a Margarida não quer dizer que sejam desprovidos de talento. Está a imaginar o que era se as livrarias pusessem nos seus estabelecimentos bonecos de cartão em tamanho natural com a cara do Toni ou do Zé? Não pode ser, a Margarida tem muito mais writing-appeal... A sua ebúrnea verve paragráfica combina maravilhosamente com o azul-turquesa de um poente em Saint-Tropez.As coisas são assim. A Margarida trouxe milhares e milhares de sopeiras para a leitura... Gente que não passava de um «Guerra e Paz», de um João Miguel Fernandes Jorge, de um Guimarães Rosa-dos-Ventos, de um Jorge Marado. Nem toda a gente teve educação e foi sensibilizada para ler Paulo Coelho. Devia haver uma Margarida Rebelo Pinto em cada esquina.
O sol começava já a desaparecer no horizonte quando se aproximou de nós o poeta José Tolentino Mendonça (JTM). Timidamente, dirigiu-se ao ensaísta na sua voz suave e sussurrada.
JTM – Peço desculpa por interromper a entrevista. Mas se o Carlos me desse licença era um grande prazer poder cumprimentar o Eduardo Lourenço...
CVM – Toda a licença.
Eduardo Lourenço fez menção de desligar o gravador, mas José Tolentino Mendonça antecipou-se.
JTM – Por amor de Deus, quem desliga o gravador sou eu.
Voltámos a ligar o gravador. Um diálogo entre José Tolentino Mendonça e Eduardo Lourenço é sempre importante para a literatura portuguesa.
EL – Então, continua a fazer os seus versinhos?
JTM – De vez em quando... É um grande prazer vê-lo por Belém. Posso oferecer-lhe um pastel? Trouxe meia-dúzia. Já abriram outra vez. Domingo passado não houve futebol e as claques foram destruir as rochas da Boca do Inferno. Depois falamos... Depois falamos... Vai ficar muito tempo em Portugal?
EL – Ainda não sei bem. Tenho de falar com as pessoas da Leya. Vou começar a escrever para uma chancela nova, mas ainda não percebi bem qual. Até lá vou ser o coordenador das entregas de livros escolares. Parece que tem havido uns problemas e o Isaías acha que eu sou a pessoa indicada para bater as estradas do país e levar a cultura de lés-a-lés. Afinal, temos 800 quilómetros de costa.
Nesta altura, Eduardo Lourenço levantou-se.
EL – Ó Carlos, desculpe, diga lá ao Francisco que já não há entrevista. Vamos todos até ao Salão Erótico. Pavilhão 4 da FIL, 31/10 a 2/11.

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sábado, 6 de setembro de 2008

Um pormenor da tarde

O que vou escrevendo

Um pouco do que vou escrevendo…
Um vulto escuro, a mexer-se devagar, mas sem sair do sítio onde estava. Parecia uma pedra do empedrado, uma das maiores, a querer levantar-se…
(imagem do cenário aqui)
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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Revista «Ler»

A cada mês, um mistério. Aí está a capa da revista «Ler» de Setembro, com Eduardo Lourenço.
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quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Uma crónica do Luís Graça (3)

Terceira de uma série de crónicas do Luís Graça. A primeira pode ser lida aqui e a segunda aqui.

Caricas ao sprint
Definitivamente, as corridas de caricas fazem parte do passado. Já não há miúdos a jogar à carica na praia, em cima de um muro, no chão, em qualquer lado.
Para quem não saiba, as caricas são as tampas das garrafas. Um produto de grande valor desportivo para qualquer miúdo da minha geração. Uma carica lisa (que não tivesse ficado muito vincada na hora de abrir a garrafa de cerveja ou o refrigerante) possuía grande valor para os potenciais «ciclo-cariquistas» da minha infância.
O processo de criação de um ciclista não era muito complicado, mas requeria humildade, «olho clínico» e paciência. Primeiro, a criança munia-se de um saco de plástico onde guardar as caricas abandonadas pelos empregados de café; posteriormente, dirigia-se ao dito estabelecimento, à «hora de ponta», quando houvesse muitas caricas no chão; depois, recolhia as caricas que estivessem mais lisinhas, ou seja, com aspecto de competição. Ainda era necessário passar pela papelaria mais próxima e comprar papel de lustro de várias cores, bem como fita gomada e uma tesoura. Claro que o lar já estava equipado com o «Diário de Notícias», que incluía na secção de desporto a constituição de todas as equipas participantes na Volta a Portugal.
A etapa seguinte na fabricação de uma carica de alta competição assemelhava-se a um acto cirúrgico. A precisão tornava-se imperiosa na arte de recortar as tirinhas minúsculas com o nome do ciclista. Uma distracção e o ciclista desaparecia abruptamente da Volta a Portugal, verdadeiramente vítima da tesoura involuntária da censura. Qual doping...
Conforme a equipa, assim era a cor do papel de lustro que constituía a «camisola» do ciclista. Seria a primeira coisa a ocupar o pequeno espaço circular de uma carica. Por cima, justapunha-se o nome do ciclista, que muitas vezes sobrava e ficava dobrado. Entrava então na dança a fita gomada, com muito jeitinho, pois mal aderisse ao papel de jornal o ciclista ficava irremediavelmente colado, para o bem e para o mal. O processo repetia-se para todo o pelotão da Volta a Portugal.
Fácil será depreender que a época nobre do «ciclo-cariquismo» coincidia com o mês de Agosto. Por um duplo motivo: as férias escolares (então ditas férias grandes, que na altura se prolongavam até Outubro) e a disputa da Volta a Portugal em Bicicleta.
De férias no campo, eu era um verdadeiro todo-o-terreno do «ciclo-cariquismo». Jogava à carica nos muros da minha vivenda (exercício de perícia, dada a exiguidade do espaço e a irregularidade da superfície), no chão de pedra (onde se desenhou uma pista a tinta vermelha, com bandeira de xadrez na chegada e tudo) e no quintal, na terra batida à volta do pinheiro manso. Aí, a pista era esculpida facilmente com a ajuda de uma colher de pedreiro, criando um carreiro de excelente qualidade. Tudo isto se passava na Venda do Pinheiro, depois tornada famosa pelo «Big Brother». Na altura, os miúdos estavam mais na onda do Joaquim Agostinho, do Fernando Mendes, do Leonel Miranda, do Emiliano Dionísio, do José Martins ou do Firmino Bernardino.
Mas o fenómeno do «ciclo-cariquismo» era universal. Na Praia de S. Martinho do Porto fui espectador privilegiado das competições que decorriam em gigantescas pistas à beira-mar, na areia molhada. Havia de tudo, como na farmácia: túneis, prémios da montanha com subidas em espiral e saltos à MacGyver para rectas enormes, curvas com relevé e dezenas de adultos que observavam com admiração o engenho dos miúdos com 13 ou 14 anos, mais velhos do que eu aquela meia-dúzia de anos que parecia uma eternidade.
Ouviam-se os nomes de Eddy Merckx, Poulidor ou Van Impe, porque nem todos podiam ser o Joaquim Agostinho. Na praia, as caricas não tinham o nome dos ciclistas. Eram de usar-e-deitar-fora.
Outro acessório útil ao «ciclo-cariquista» era o penso rápido. Porque essa coisa de passar horas a mandar piparotes com o indicador numa superfície metálica bicuda fazia mesmo pequenos buracos que nos punham a sangrar ligeiramente. Como uma bailarina clássica com os pés em sangue, por dançar em pontas – a comparação não é a mais feliz, mas foi o que se pôde arranjar.
As caricas eram uma paixão. O berlinde e o pião estavam decididamente a perder terreno para a carica, objecto que possuía a enorme capacidade onírica de transformar uma tampa de garrafa num herói à escolha. Era a vertigem da velocidade.
Curiosamente, a carica nunca foi usada no motociclismo. Não havia caricas do Giacomo Agostini, do Barry Sheene ou do Angel Nieto. Nem havia caricas de pilotos de Fórmula Um. No último caso, a explicação era simples: havia os carrinhos em miniatura.
De resto, as situações eram perfeitamente complementares. Os «ciclo-cariquistas» eram também apreciadores de corridas de carrinhos. E as caricas serviam também como marcos de delimitação das pistas. Obviamente, para delimitar as pistas era necessário muitas caricas. Nada que constituísse um problema na Venda do Pinheiro, terra da fábrica da Laranjina C. Para além do preto-e-vermelho da Laranjina C, havia outras caricas famosas no mercado: Sagres, Trinaranjus, Luso – só para dar alguns exemplos.
Que saudades das caricas, caraças!...

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Dia histórico

Pela primeira vez em muito tempo este blog teve um dia sem nenhum post novo. Ontem. Terá sido, portanto, um dia histórico.
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terça-feira, 2 de setembro de 2008

Mistura injustificada

Uma mistura de confiança com alguma apreensão, era o que eu sentia ontem antes do jogo do Sporting em Braga – Braga 0, Sporting 1 (Hélder Postiga). Afinal não se justificava a mistura. A equipa apresentou-se personalizada, lutadora e quase sempre a usar a inteligência (aqui destoou um pouco Hélder Postiga, o substituto de Yannick, que por vezes parecia que andava à procura do cartão vermelho; mas dá-se-lhe algum desconto, por causa do golo). E ainda duas coisas… Primeira, o Sporting entrou de início com jogadores que sabem jogar futebol, isto se fecharmos os olhos à presença de Caneira, que era mais do que certa para este jogo; mas ontem à noite até ele disfarçou as tradicionais fragilidades. Segunda, dois dos suplentes utilizados (Tiuí e Miguel Veloso) destoaram do resto da equipa, já o terceiro (Vukcevic, finalmente de regresso, embora jogando poucos minutos) representa sem dúvida um bom sinal para o futuro.
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O que vou escrevendo

Um pouco do que vou escrevendo…
Uma águia a voar e com o fogo nas penas. Como poderia ela voar? A menos que não fosse uma águia aquilo que se aproximava…
(imagem do cenário aqui)
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Fernando Venâncio

O texto que coloco a seguir é da autoria de Fernando Venâncio (na foto, de Paulo Escrevente). Está na edição deste mês da revista «Pessoal» (secção «Os Meus Trabalhos»).
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Vamo-nos todos divertir imenso
Gosto de que me perguntem o que faço na vida. O clima de boa disposição está garantido. Se bem percebi, iluminam-se-me os olhos, e, mesmo que a pressa não permita entrechos, o outro ficou certo de que estava ali uma grande conversa.
Mas não exageremos. O essencial diz-se num sopro: sou professor, dou aulas. A certo grupo de alunos, levo a exprimirem-se em português, e pelo menos a entendê-lo. A outros, inicio-os na complexa Política Linguística europeia, com os seus modelos, as suas manhas, as suas hipocrisias, os seus ideais. A minha acção no mundo por aí se fica. Não pertenço a circuitos influentes, não varro os continentes comunicando as últimas, sou duma pacatez que até a mim próprio faz impressão. Fora do espaço de ensino, sou um mero observador. De longe em longe, e lamentando a intromissão, acedo a contar aquilo que avisto. Mas devo dizer que se avista muito.
Durante algum tempo, lancei avisos à navegação num blogue. Fui feliz com isso, e ouso pensar que não fui o único. Mas, quando depus o microfone, descobri uma tranquilidade nova: a de não ter que produzir «opiniões».
Antes dos blogues, servia-me do que havia: o pacientíssimo papel dos jornais. Uma descoberta aqui, uma denúncia ali, um desapontamento acolá, eu ia mapeando o mundo literário nacional e fazendo a minha terapia – sendo pago por isso, ainda que mal. Mal, e por culpa minha, nossa, a dos trabalhadores intelectuais, que convencemos directores de jornais e editores dessa imensa graça que não é o nosso nome por cima dos títulos ou em baixo dos textos. Para me garantir algum respeito próprio, prefiro pensar que eles, decentemente, nos desprezam.
Reuni tão inocentes divertimentos em dois livros, «Maquinações e Bons Sentimentos», em 2002, e «Último Minuete em Lisboa», este ano. Neles tentei a «outra» história da literatura do meu tempo. E gosto de pensar que, num dia distante, se o olhar histórico aliciar ainda algum desviante, serei lido com avidez, em bárbaro suporte ou em holograma. Um neto de netos irá ter aquilo que, quando, há 20 anos, esgaravatei o século XIX literário português por trás da versão dos vencedores, eu não tive: os relatos de quem espreitou nos bastidores desse mundo. Tive de espreitar eu próprio, deu mesmo uma tese de doutoramento, mas não mudou um iota à História Oficial. Seria, de resto, pasmoso que mudasse.
Este empenho na coisa literária nunca foi, tem de confessar-se, além de um derivativo. Um lugar ameno, de longe em longe alvoroçado, mas donde sempre se sai sem particular drama. O espaço que nunca abandonei é o da observação do idioma. Como objecto histórico, como criação colectiva.
O linguista estava feito aos 10 anos, quando em mim três feições de português se debatiam já: a alentejana natal, a lisboeta da primária, a minhota em que acabara de mergulhar. Um jovem de hoje não faz ideia da compartimentação linguística que, há 50 anos, entre nós vigorava. Nada, decerto, que se compare ao país que hoje habito, onde a intercompreensão dialectal se torna precária a 50 quilómetros. Mas era mais do que suficiente para desnortear um tenro infante, despertando-o, de caminho, para as agruras e os fascínios da ciência.
A diversidade linguística portuguesa (entretanto grandemente esbatida pela mobilidade e pela televisão) teve sempre uma leitura predominantemente nacionalista. Teve-a, e tem-na ainda, a própria História da Língua. Tudo quanto se observe em território nacional recebe uma explicação endémica, aconchegante. Mítica, às vezes mitológica, mas fantasiosa de cima a baixo. Ora, o nosso idioma, só por artifício se pode defini-lo como produto «nacional». As suas feições marcantes estavam já decididas, e actuantes, quando sobreveio a «nacionalidade», e teriam sempre existido, mesmo sem ela. Entendeu-me bem: o que chamamos «português» existiria mesmo que não existisse Portugal. Teria sido chamado, sim, o que efectivamente já era de nascença: «galego».
Sei que, exprimindo-me assim, estou a ser inconveniente. Espero demonstrar, um dia, que estou a ser simplesmente sério. Isso vai exigir um livro, «Português e Companhia», que, transbordando de amor pátrio, há anos preparo.
Não excluo que, dessa vez, a pachorrenta e sedativa História Oficial franza pelo menos um sobrolho. Uma coisa posso garantir: vamo-nos todos divertir imenso.
[Texto: Fernando Venâncio]
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Fernando Venâncio (n. Mértola, 1944) é professor na Universidade de Amesterdão, onde se formou em Linguística e se doutorou em Teoria Literária. Colabora na «Ler» e no «Expresso». Publicou os romances «Os Esquemas de Fradique» e «El-Rei no Porto». Traduz ficção do neerlandês.
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A errata de Octávio Machado (3)

Ainda a errata do livro de Octávio Machado. Depois do que coloquei aqui e aqui, mais uma correcção.
Na p. 114, onde se lê «têm ódio», deve ler-se «gostam pouco de».
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O terrível Tiago

Ver aqui. Provavelmente o primeiro jogador do mundo a prender o presidente do próprio clube..

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O livro censurado

O livro de José Cardoso Pires apreendido em 1952 pelo regime criminoso de Salazar e que até agora não tinha sido reeditado. «Histórias de Amor» tem finalmente uma nova edição, que sairá na segunda quinzena deste mês, nas Edições Nelson de Matos; edição que reproduz os cortes feitos em 1952 pela quadrilha do lápis azul, a Comissão da Censura, e ainda uma longa carta que José Cardoso Pires lhe dirigiu e três críticas então publicadas na imprensa (de Luís de Sousa Rebelo, Mário Dionísio e Óscar Lopes). A imagem da contracapa reproduz um retrato a óleo do escritor, de 1954, da autoria de Júlio Pomar.
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Texto de divulgação da editora
A primeira edição deste livro foi publicada em Julho de 1952, pela Editorial Gleba, numa colecção de bolso intitulada «Os Livros das Três Abelhas», dirigida por Victor Palla e Aurélio Cruz.
Foi retirado do mercado pela Censura em 26 de Agosto de 1952.
Tendo sido possível utilizar o exemplar onde estão sublinhadas a lápis azul as partes do texto que motivaram a apreensão da edição, indicam-se nesta edição esses sublinhados, mediante a sobreposição de uma rede de cinzento sobre o texto original, mantido sem cortes.
José Cardoso Pires nunca mais publicou este livro na sua versão inicial, embora o tenha mantido sempre na lista das suas obras completas.
Alguns destes contos (excepção feita a «Romance com data», que permaneceu sempre inédito) foram mais tarde reescritos e incluídos na edição de «Jogos de Azar», publicada em 1963, pela Editora Arcádia.
Nesta edição conservam-se todos os contos na sua versão inicial.
José Cardoso Pires, então com 27 anos, decidiu reclamar da apreensão do livro junto dos Serviços de Censura. Primeiro, pessoalmente, tendo conseguido manter em seu poder o exemplar com a indicação dos cortes de censura que serviu de base a esta edição; depois, por escrito, logo em 26 de Outubro de 1952, através da carta que é conservada como anexo no final da edição.
Críticas de Mário Dionísio, Oscar Lopes e Luís de Sousa Rebelo, publicadas em 1952, são também conservadas, no final, como anexos a esta edição.
«Histórias de Amor»
Autor: José Cardoso Pires
Colecção «Mil Horas de Leitura», nº. 5
Revisão de Ana Cardoso Pires
Formato: 13,5x20,9
Nº. de págs.: 200
Preço com IVA: €20,00
ISBN: 978-989-95597-7-6
EAN: 9789899559776

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Uma crónica do Luís Graça (2)

Segunda de uma série de crónicas do Luís Graça. A primeira pode ser lida aqui

O cromo do Müller valia 50
O cromo do Gerd Müller, o grande «artilheiro» do Mundial de 1974, valia 50. Era um cromo difícil, daqueles que convinha pôr no cofre dos nossos afectos. «G. Müller (Alemanha Ocidental). Avançado, 28 anos e 50 vezes internacional. Marcou já 62 golos como internacional. Joga actualmente pelo Bayern de Munique.»
Estas quatro linhas do segundo cromo a contar da esquerda da última fila da quinta página da «Caderneta Mundial 74» pareciam-nos mais do que suficientes. Afinal, o futebol era uma religião de ídolos que raras vezes víamos na televisão, numa altura em que a hora de ponta se situava entre as 19 e as 20 horas. Nos dias de transmissão televisiva as buzinadelas eram maiores. Eu saía do liceu e ia a correr para casa. Não se podia perder o Bayern de Munique e o Müller. O Müller que foi a perdição da Holanda do Cruyff na final do Mundial. Sim, o Cruyff que aparecia no último lugar da última fila da décima quarta página: «J. Cruyff (Holanda). Avançado, 26 anos e 26 internacionalizações. Em 1973 foi trespassado do Ajax para o FC Barcelona. Futebolista europeu do ano de 1971. Já ganhou três Taças da Europa.»
E depois a rapaziada discutia. Que as Taças da Europa eram a Taça dos Campeões Europeus, que o Cruyff não tinha sido futebolista europeu do ano só em 1971. O pior é que, vá-se lá saber por que bulas, quem valia 50 cromos era o Müller, que não tinha o poder de finta do Cruyff. E os miúdos portugueses adeptos do Sporting não percebiam mesmo por que raio o Yazalde não aparecia na colecção. Bolas, só avançados era meia página da Argentina: Chazarreta, Telch, Ponce, Balbuena, Guerin, Ayala, Avallay e Alonso. E também faltava o Kempes.
O Mundial de 1974 é das colecções de cromos que tenho completa. Assim como a do Camões. «Colecção de 124 cromos, 4ª edição. A biografia por imagens do maior poeta português, com todos os principais passos da sua atribulada existência de moço trovador, espadachim, guerreiro e genial autor das inspiradas estrofes de ‘Os Lusíadas’.» O moço trovador aparecia na bela capa da quarta edição da Agência Portuguesa de Revistas (1966) já com a pala no olho, numa pose ameaçadora para um «infiel», em cabelo desgrenhado, a proferir um «Yáá» à Bruce Lee, que não se ouvia mas que se adivinhava.
Completei a colecção do Camões em pleno sarampo. A cabeça toda cheia de bolhas e um amigo ex-sarampista à cabeceira da cama, num tráfico de movimentos automatizados, feito com o polegar e o indicador, enquanto os cromos se acumulavam em dois montinhos. «Tens? Tenho. Não. Não. Tenho. Tenho. Não. Pára. Dou-te o 123 por esse.»
Não era fácil completar as colecções de cromos. Os repetidos eram uma praga de impossível erradicação. As praças dos Restauradores e do Rossio acudiam à nossa aflição. Personagens de boné à Pedroto e dedos amarelos da nicotina abriam-nos as malas diplomáticas com o ar clandestino de quem trafica droga. E nós pagávamos mais pelo alegre privilégio de escolher os cromos fora das carteirinhas. Era o que valia.
Por completar ficaram a caderneta didáctica «O Mundo em Bandeiras» (200 cromos), que começava com Portugal e acabava com Angra do Heroísmo; «Notas de banco de todo o mundo» (242 cromos de notas que tinham um carimbo a dizer «sem valor legal»); «Figuras e monumentos nacionais, cromos-adivinhas» (primeira edição, Outubro de 1968, colecção de 167 cromos), desenhos de Júlio Amaro e legendas de J. de Oliveira Cosme.
O primeiro era o Viriato. «Denodado comandante/ De um punhado de serranos/ Em brava luta constante/ Vence os antigos romanos/ E tão grande apreensão/ Acaba por lhes causar/ Que estes resolvem mandar/ Assassiná-lo à traição/ Recordar é sempre grato/ o nome de...». E nós, se fôssemos um bocadinho vivaços, com a nossa caligrafia inocente escrevíamos «Viriato», com a satisfação característica de quem acabou de descobrir a pólvora.
O último cromo era dedicado a Marcelo Caetano. E rezava assim: «Não podendo Salazar/ Prosseguir o seu mandato/ Foi, por Conselho de Estado/ Eleito p’ra o seu lugar/ Activo e desassombrado/ De modernas concepções/ Segue um caminho traçado/ Sem ceder a ilusões/ Quem é? Digam, sem engano/ Doutor...».
Incompletas ficaram ainda «História das Descobertas», «Transportes, terra, mar e ar», «História Natural», «Internacionais da Bola», «Futebol 77, a grande selecção», «Futebol 1975/ 1976», «Futebol 77». Mas a minha maior paixão era a «História de Portugal», graças a Deus completa.
As memórias são dos bens mais preciosos que temos. Escondem os nossos prazeres e conservam os amores numa arca frigorífica cheia de afectos. Coleccionamos os nossos prazeres ao longo dos anos, sabemos que armazenar as nossas afeições é uma tarefa inata de suprema paciência. Todos os nossos afectos têm uma hierarquia, uma espécie de semáforos que regulam um carreiro de formigas. As colecções de cromos fazem parte dela. Pequenos rectângulos de referências múltiplas. São os Picassos, Mirós, Gauguins e Monets das crianças. Ainda bem.

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