quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Escritores no meu romance (24)

Ian McEwan, Inglaterra
... Ian McEwan estava junto a uma frase, que se presumia ser da sua autoria, «uma obra prima de observação e de estilo».
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 146)

Uma reflexão importante

A capa de hoje de «A Bola». Os vês (Vieira e Vara) aqui não interessam. O que me chama a atenção é aquilo do canto superior direito, a reflexão de Carlos Freitas, um dos administradores do Sporting. É difícil arranjar alguém que tenha prejudicado tanto o clube nos últimos tempos como Carlos Freitas, com as suas escolhas de jogadores para comprar. Está em reflexão, espero que para sair. Eu acho que Filipe Soares Franco é que devia de estar em reflexão, para fazer com que ele saia. Enfim, também não é importante, desde que saia.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Brasil 2014

Mundial de futebol de 2014 no Brasil. E se fôssemos lá com o senhor Scolari?

Infelizmente é assim

Miguel Sousa Tavares hoje em «A Bola». Infelizmente é assim como ele escreve no título. O Benfica, enfim, é a confusão que se vê e que já se esperava. No Sporting – que é o que me interessa – a incompetência dos responsáveis parece não ter limites; a sensação que dá é a de que se sentem tão à vontade no mundo do futebol como o jogador (?) Purovic na grande-área.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A pérola

Via «Corta-fitas»/ João Villalobos: esta pérola.

Escritores no meu romance (23)

Miguel Torga, Portugal
… os livrinhos brancos e por cortar das edições que Torga ia fazendo por conta própria…
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 74)

domingo, 28 de outubro de 2007

A chulice

Conta-se aqui.

Pergunta discreta

O que aconteceria com esta coisa da dívida paga pelo pai ao filho se tudo se passasse no Espírito Santo?

Dizer o quê?

Dizer o quê do deplorável jogo do Sporting esta noite na Madeira? Nacional 0, Sporting 0, apenas com uns remates na parte final, mas já a jogar com dez depois de mais uma inacreditável entrada de Purovic. A ideia que dá é a de que Paulo Bento está a destruir a equipa do Sporting. Não percebo por quê. Ou é de compreensão lenta, ou passou-se (como diz o Joe Berardo do Jardim Gonçalves) ou então é outra coisa qualquer. Se o Porto ganhar ao Leixões, vai ser bonito…

Um péssimo árbitro

Vi um resumo do jogo entre o Guimarães e o Leiria. De facto, Duarte Gomes, o mesmo do penalty inventado para o Benfica na Amadora, é um péssimo árbitro.

sábado, 27 de outubro de 2007

Textos sobre livros - 42

A viagem imprevisível
Em tempo de calhamaços, ainda por cima calhamaços de famosos como Miguel Sousa Tavares e José Rodrigues dos Santos, coloco aqui uma outra proposta de leitura em que não faltam páginas (mais de setecentas). De qualquer forma, eu conto ler tanto o livro de Sousa Tavares como o de Rodrigues dos Santos, isto pelas experiências anteriores; pelo que têm de bom (as histórias costumam ser empolgantes) e apesar do que têm de mau (principalmente Rodrigues dos Santos, cuja escrita costuma ser bastante descuidada, com erros, coisas sem sentido e passagens de gosto duvidoso que por vezes levam a que se leia uma e outra vez e não se acredite – lembro aqui os «uh’s» da maior parte das personagens de «A Fórmula de Deus» e uma coisa que talvez se explique com algum vírus informático, que é o uso de vez em quando de uma estranha forma verbal do género da desta frase, «eles conseguiram irem a Lisboa»).
A proposta é o romance «O Expresso de Berlim» (Edições ASA, 736 páginas), de António Andrade Albuquerque. O autor nasceu em Lisboa, em 1929, tendo-se tornado bastante conhecido, inclusive internacionalmente, com romances policiais assinados com o pseudónimo Dick Haskins. Aqui, narra uma história que decorre em plena Segunda Guerra Mundial (e que tem continuação num outro romance, «O Papa que Nunca Existiu»). Tudo começa em Lisboa, em Agosto de 1943. João Kessler Albano Martins é um jovem professor universitário (filho de um português e de uma alemã). Lisboa fervilha de espiões e agentes secretos. O jovem professor vai acabar por ser envolvido nos jogos perigosos desse mundo. Por uma razão muito forte, a sua própria mãe. Esperam-no aventuras com que nunca terá sonhado, e espera-o o amor, mesmo que não possa ser para sempre. A viagem imprevisível é a do expresso que liga Berlim e Paris. Mas é também a viagem que o professor inicia de Lisboa para Londres, depois de Londres de novo para o continente, a França, a Alemanha… Com Vera a seu lado, uma jovem de 24 anos, de «cabelos negros e olhos tão bonitos que não pareciam reais». A escrita do autor toca a perfeição.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Escritores no meu romance (22)

Eduardo Mendoza, Espanha
No ano em que o mágico velhinho chegou a Barcelona, a cidade encontrava-se em plena febre de renovação.
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 157)
Ilustr. Loustal

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Uma notícia preocupante

Preocupante esta notícia. Tenho as minhas contas no Banco BPI. O pior é que há uns anos, por uma parvoíce, abri uma conta numa das marcas (ou nem sei o que lhe chame) do outro banco referido na notícia e ao fim de uma semana tive de ir a correr fechá-la porque já parecia não haver dinheiro que chegasse para despesas e mais despesas (mas acabaram por devolver o que tinham retirado da conta). Uma coisa inacreditável. Se isto avançar, tenho de pensar bem no que vou fazer.

Os comentários

Voltaram os comentários ao blog de Francisco José Viegas. Na altura em que ele decidiu suspendê-los, eu tinha uma crónica sobre blogs numa revista. Escrevi sobre o assunto. Isto…

As devidas diferenças
Tenho um blog. Coisa de dois ou três meses, não mais. E até aqui nunca tinha pensado muito no que algum visitante pudesse lá colocar. Só uma vez tive problemas, não com um comentário de que não tenha gostado (esses, há que aguentar), mas com um a descair para o ordinário. Não é de admirar um tal descanso; a ideia que tenho é a de que pelo blog passam uns visitantes de vez em quando, uns amigos, uns familiares, ou então algum desgraçado que ande perdido, sem encontrar a saída, nas auto-estradas – como se dizia nos primeiros anos destas coisas – da informação. Por isso, quanto a comentários, quase que só no dia em que o rei faz anos; e sendo Portugal uma república – que cada vez mais pessoas defendem ser das bananas – então está-se mesmo a ver o que me calha.
Já o mesmo não acontecia com Francisco José Viegas. Com ele, ou antes, no blog dele, os comentadores eram mais do que muitos, atropelavam-se uns aos outros, interpelavam-se também uns aos outros e, pior do que isso, interpelavam o próprio autor, e por vezes pareciam mesmo com vontade de atropelá-lo. E então deu nisto, ou melhor, deu num post de Francisco José Viegas do dia 23 de Julho que dizia assim: «Este blog deixa, a partir de hoje, de ter comentários. Não tem a ver com a publicação de ‘opiniões contrárias’ no espaço do blog destinado aos comentários – nunca houve censura. Mas qualquer blogger tem direito a manter limpo e decente o seu blog. A generalidade dos leitores do ‘A Origem das Espécies’ sempre foi cordata e correcta nos seus comentários, mas acaba por ser intolerável a presença de textos insultuosos nesse espaço que até agora foi público. Já há lixo a mais por aí fora. O endereço habitual de e-mail continua disponível, como sempre esteve, para todos os leitores que pretendam comentar ou ver publicadas as suas opiniões no ‘Origem’.»
Para mim, tirando um ou outro caso, o problema dos comentários do blog de Francisco José Viegas foi o mundial de futebol e as confusões com o Scolari, o Quaresma e mais uma data de cromos da bola. Umas opiniões sobre livros, ou sobre política, e a coisa ainda vai, mas quando se mete o futebol ao barulho as medidas são sempre outras. E, claro, o blog do ferrenho adepto Viegas começou a encher-se do tal «lixo» e dos tais «textos insultuosos», sendo que ainda por cima se trata de um tipo de «lixo» impossível de reciclar, nem com o recurso às mais avançadas técnicas de edição.
Francisco José Viegas tem publicado algumas mensagens que agora recebe por e-mail a propósito do que vai acontecendo no blog. Eis alguns exemplos, que dão para perceber o acolhimento que teve a decisão de acabar com os comentários: «(…) o direito ao contraditório é e será sempre um pilar fundamental da democracia. Energúmenos sempre houve e haverá, mal-educados idem aspas. Mas acredito que para combater a estupidez a melhor forma não é a mordaça. É, sim, o confronto intelectual.»/ «(…) para tentar dar alguma importância ao lixo, tento fazer notar que na ouverture [bela palavra…] de ‘A Origem das Espécies’ você cita Darwin para frisar que quer ‘consider the value of the differences between the so-called races of man’. Sinceramente, o lixo é tão fundamental para este propósito como qualquer centelha de razão, lucidez ou inspiração. (…) Acho a atitude ‘deixas-me dizer ao mundo que existo?’ legítima por parte do blogger comentador e acho ainda a atitude ‘vá lá, diz lá ao mundo que existes’ um sinal de extrema generosidade por parte do blogger comentado. (…) um comentário deixa-se com alguma impunidade no que diz respeito à relativa leviandade e inanidade do seu conteúdo. Um e-mail redige-se e envia-se com alguma reflexão. Suponho (ou espero) que lhe seja mais compensadora a leitura da correspondência do que a leitura dos comentários.»
Eu, cá no meu canto, noto que numa coisa levo vantagem a Francisco José Viegas. Raramente preciso de me chatear muito. Uma opinião dele não é como uma opinião minha, ou melhor, dizendo ao contrário e talvez de forma mais correcta, uma opinião minha não é como uma opinião dele. Há que ver, como se usa muitas vezes noutro tipo de construção frásica, as devidas diferenças. A verdade é que posso escrever as barbaridades que quiser no meu blog que nunca dá muita confusão. Posso até escrever coisas que dificilmente poderão ser consideradas barbaridades e o resultado será o mesmo. Pudesse Francisco José Viegas um dia desfrutar dessa tranquilidade…
Blogs consultados: http://www.origemdasespecies.blogspot.com/ («A Origem das Espécies»), mantido por Francisco José Viegas; e o meu, é claro, mas muito a correr.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

O Sporting em Roma parecia o Benfica

Paulo Bento, no jogo de ontem (Roma 2 - Sporting 1, Liedson), andou às aranhas, aos papéis, a apanhar bonés, nem sei bem; parecia de cabeça perdida debaixo daquela capa de «tranquilidade» que se esforça por mostrar. Confusões, erros, lentas compreensões, tudo contribuiu para a derrota num jogo que facilmente poderia ter sido empatado e com alguma esperteza poderia ter sido ganho. Algumas notas…
- Yannick parece que toma uma dose bem forte de calmantes antes de cada jogo (vê-se sobretudo pelo ar apático e por vezes aluado com que anda pelo campo, de um lado para o outro) – dá ideia de que começou tudo com a aposta inicial de Paulo Bento em Derlei, que o deitou completamente abaixo.
- Miguel Veloso pode muito bem jogar na defesa porque é muito bom (na volta até ao ataque ele se desenrascava), mas só por burrice ou alguma compreensão lenta é que se desperdiça a sua categoria como médio, tirando-o da posição habitual.
- Gladstone, que tem mais jeito com a bola do que o desastrado Polga, é contudo muito menos esforçado e por vezes parece que tem um dispositivo qualquer adaptado à coluna que o impede de fazer grandes corridas e movimentos bruscos; ou seja, é um problema se joga, só rendendo alguma coisa se andar colado a um avançado adversário tipo lapa para não o deixar jogar, ficando as coisas quase dez contra dez (o ideal seria o avançado ir para trás de uma das balizas e assim o jogador-pistoleiro seguia-o e até ficava mais campo livre para o jogo). Pergunta-se então, quem terá decidido (e com que base) a contratação de Gladstone?
- Dois bons jogadores falharam clamorosamente no segundo golo sofrido. As explicações que encontro são as seguintes: Abel é um jogador com muito à vontade com a bola, não costuma fazer cortes à maluca tipo Polga, mas não percebe que há zonas do campo em que mais vale mesmo cortar à maluca em vez de estar a tirar a bola ao adversário para sair com ela controlada a jogar (isso pode admitir-se a um jogador do nível de Ricardo Carvalho, por exemplo, não a ele) – além disso, parece que fisicamente Abel tem limitações quando apanha avançados fortes; quanto a Tonel, é um bom jogador para estar ao lado de um outro central só que de grande nível; que saiba controlar a bola, passá-la, que seja forte fisicamente e que seja muito aplicado, mas nenhum central do Sporting reúne estas características (mais uma vez, Ricardo Carvalho seria o exemplo, mas se o Sporting nem segura as jovens promessas o melhor é nem pensar em ter na equipa um jogador assim para não estar sempre à espera do dia em que seria vendido).
- As substituições, com as entradas de Paredes, Celsinho e Purovic. Pouco a dizer… Três jogadores assim a entrarem arrasam qualquer equipa. Imagino o que terão pensado, por exemplo, Liedson e Miguel Veloso, sabendo que iam ter no onze, juntos, aqueles três. Paredes já foi um bom jogador, mas agora é o que se vê (enganou bem enganados os que decidiram a contratação, mas a julgar por outros casos podia ter dito a verdade que contratavam-no na mesma); Celsinho não mostra absolutamente nada, mas sempre pode ser que de repente passe a jogar alguma coisa; o caso de Purovic, o jogador que em campo toca a indigência, é o mais grave. Ou seja, não se percebe por que é que Paulo Bento os faz entrar, como antes não se tinha percebido por que os tinha levado para o banco em vez de os ter deixado a treinar na academia.
- A postura que Paulo Bento tinha nos primeiros tempos perdeu-se. Acabou por ser um pouco como Yannick, que se tornou um jogador aluado. No caso de Paulo Bento, deixou de apostar nos mais jovens e por isso aqueles três ou quatro que poderia ter lançado esta época ou estão emprestados ou apenas a treinar no Sporting. Qual é o risco de apostar em Adrien Silva, ou qual seria o risco de ter apostado em Pupo e em Saleiro? Mesmo que fossem apostas falhadas, não seria imensamente melhor tê-lo feito do que fazer com que a camisola do Sporting continue a ser vestida por jogadores (?) como Purovic, que parece mais talhado para modalidades como a marcha, o tiro com arco ou o voleibol?
- Uma última nota, talvez a mais preocupante – o Sporting ontem, em Roma, com toda aquela confusão, aquela incapacidade para reagir a partir de uma determinada altura, alguns jogadores que não lembram ao diabo (talvez apenas aos diabos vermelhos), o Sporting ontem em Roma parecia o Benfica.

Escritores no meu romance (21)

Pedro Tamen, Portugal
... estava escrito «o mágico velhinho», coisa que ia até ao fim do conto, conforme se podia ver fazendo a comparação com as referências a «Pelayo» na edição mais recente, com tradução de Pedro Tamen.
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 96)

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Pergunta discreta

Por que é que o procurador-geral da República não manda arranjar o telemóvel?

Um pobre Diabo

Este é um pormenor de uma fotografia de Abril de 1968, da autoria de J. M. Nobre Furtado, tirada no alto da Fóia (Serra de Monchique). A fotografia completa, tal como mais cinco, pode ser vista aqui. As seis fotografias testemunham uma visita de um pobre diabo à minha terra. O pobre diabo fazia de presidente da República, a mando de um diabo mesmo dos de meter respeito (ou respeitinho, como creio que se dizia na altura). Chamava-se Américo Thomaz. Eu tinha nascido havia dois meses e no dia em que foram tiradas as seis fotografias devia estar em casa, a poucos quilómetros dali, provavelmente no berço. Uns cinco anos depois, o pobre diabo haveria de visitar de novo a minha terra. Se a visita das fotografias era privada, a nova visita era mesmo como presidente da República, já não às ordens do diabo de meter respeitinho (tinha morrido entretanto) mas do idiota que a este sucedeu na presidência do governo. Nessa visita como presidente da República, o pobre diabo apanhou-me à saída da catequese e eu sem saber bem por quê lá lhe apertei a mão quando ele ma estendeu («Menino, menino», disse-me ele). Lembro-me de que andava em passo apressado mais a comitiva que o acompanhava por uma das ruas principais da vila, e lembro-me de que os gê-éne-érres pareciam ter gosto nos empurrões e nos pontapés que distribuíam a quem saísse da ordem. Não sei se foi ao alto da Fóia nessa segunda visita. Nem se há fotografias.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

De novo o QI

A teoria da burrice no futebol foi criada aqui, a propósito de Luiz Felipe Scolari. Eu agora apetecia-me falar em burrice, mas não, vou retomar a dúvida do QI. Não vi o jogo do Sporting em casa emprestada com o Fátima – mais uma substituição da relva depois da sucessiva incompetência dos gestores (?) em relação a esse assunto. Estava em viagem e não consegui mesmo ver o jogo. Mas ainda deu para espreitar num café o início, aí aos dois ou três minutos, e eu vi que ainda estava zero a zero. Na imagem, para meu espanto, ia a passar aquele jogador (?) chamado Purovic. Receei que as coisas pudessem acabar mal. Mais tarde soube que o resultado foi Sporting 1(Liedson), Fátima 2. A sensação que tive foi de surpresa, mas só por não ter sido, por exemplo, um empate a zero. Depois percebi melhor ao ver os nomes que Paulo Bento fez alinhar: além do despropositado Purovic, apareceu também, por exemplo, Farnerud, o jogador ciclista. Assim, mesmo jogando também Liedson ou Abel, os riscos são sempre enormes. Vim depois a ler que Purovic (que, como qualquer criança de seis anos seria capaz de prever antes do jogo, não fez nada no ataque) ainda conseguiu a proeza de arranjar um penalty a favor do Fátima. Claro que nestes jogos tem de jogar o refugo (tipo hades, paredes, gladstones – sejam ou não dos livros de cowboys – ou celsinhos), mas nunca os puroviques e os farnerudes, que estão bem abaixo do refugo). Paulo Bento devia perceber isso, mas pelos vistos não percebe, daí eu retomar a questão do QI.
Só uma nota, para aquilo da troca de relvado, que levou o jogo para um campo emprestado… Li há dias umas declarações de um dos gestores (?), nas quais prometia um novo relvado «de excelência». Lembrei-me da série «Palavras que Odeio», de Pedro Correia no «Corta-Fitas». «De excelência» é uma expressão que se usa muito no mundo da gestão; normalmente quem recorre a ela e a outros chavões parecidos (que metem coisas como sinergias ou sustentabilidades) nunca sabe muito bem o que diz.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

O terrível Pacheco Pereira

Depois de ter colocado no seu blog a bandeira do PSD de cabeça para baixo, Pacheco Pereira parece que anda agora a fazer o mesmo com a bandeira da União Europeia. Espreitem aqui.

A propósito do regresso de Javier Falcón

Em tempos fiz uma entrevista ao escritor inglês Robert Wilson. Ia estragando um bocado o carro para chegar à casa dele, na Serra d’Ossa, mas lá consegui. Tinha acabado de sair o primeiro livro da série com o inspector Javier Falcón e eu tinha gostado muito da leitura, embora talvez não tanto como do belíssimo «Último Acto em Lisboa», a que tinha sucedido um romance pouco conseguido («A Companhia de Estranhos»). O segundo livro com Javier Falcón («As Mãos Desaparecidas») foi para mim uma desilusão; a história arrasta-se até que a certa altura Robert Wilson deixa tudo descambar nem se percebe bem para onde. Vamos a ver o que acontece agora na terceira aventura («Assassinos Escondidos»), se Robert Wilson terá conseguido recuperar o brilhantismo com que começou a saga de Javier Falcón. Deixo a seguir a entrevista, feita em 2004.

Na cadeira da vítima
Uma entrevista a Robert Wilson

Com dois romances muito ligados a Portugal, um dos quais assente na investigação conduzida por um polícia português a quem parece que a literatura não arranjará mais casos para resolver, Robert Wilson regressa com «O Cego de Sevilha». A acção principal muda de país e o polícia é espanhol. Mais, esse polícia está tão envolvido na própria história sob investigação que chega a sentar-se na cadeira da vítima; ele e o leitor, como quis Robert Wilson. O novo polícia chama-se Javier Falcón e a literatura reserva-lhe quatro casos.

Porque é que há pessoas tão infelizes nos seus livros?
Não faço ideia... Bom, não estou seguro de que crime e violência sejam particularmente atractivos para pessoas felizes. Normalmente, os romances policiais, os thrillers, partem de actos violentos, e esses actos necessariamente dão cor ao que depois acontece, têm influência no romance. E as razões para a violência são dificuldades, talvez problemas psicológicos. Isto está necessariamente ligado a pessoas infelizes, pessoas complicadas. Mas nem todas as minhas personagens são infelizes, há pessoas que ganham conhecimento próprio, que vivem como todos nós. Nem eu estou certo de que a existência normal tenha de ser feliz. Não creio que os seres humanos sejam afeitos à utopia. Muitas vezes, as pessoas funcionam melhor quando têm dificuldades. Em tempos difíceis, não estão sempre felizes mas podem demonstrar as suas virtudes.
Também há muitas pessoas más nos seus livros...
Crime, violência e maldade andam de mãos dadas. O que tentei fazer no último livro, «O Cego de Sevilha», foi demonstrar até onde pode o ir a maldade, como pode ela apoderar-se das pessoas. O que eu próprio tentei entender, não mostrar mas entender – e eu não tinha nenhum conhecimento especial – foi isso. Nos livros, tento perceber a razão de as pessoas fazerem coisas más. Se olharmos para trás, a história dos seres humanos está cheia de coisas terríveis feitas pelas pessoas.
Quando começou a escrever «O Cego de Sevilha», tinha ideia de como era, ou seria, o pai do polícia que investiga o caso, o pintor Francisco Falcón?
Tinha uma espécie de esboço, uma ideia geral. Para «O Cego de Sevilha», eu não tinha um mapa claro da história, tinha um caminho, sabia como as coisas iriam desenvolver-se, mas não sabia os detalhes, de Francisco Falcón, por exemplo. Não sabia nada dos diários dele. Eu queria escrevê-los como se as coisas estivessem a acontecer, de forma que deixei as coisas irem andando. Desenvolvo as personagens e deixo-as andar, deixo-as interagir umas com as outras. Coloco-as na acção e depois tenho de saber como desenvolvê-las.
Não seria então capaz de descrever Francisco Falcón antes de escrever os diários?!
Não creio que fosse. Tinha uma ideia do seu carácter, de como devia ser desenvolvido, mas não sabia como ele seria. A legião, a legião azul a ir para a Rússia, isso, por exemplo, inventei na altura em que escrevia.
E há alguma razão para a cena inicial, violenta, e no final do livro para uma parecida?
Você pode pensar que é uma cena violenta, mas o que se descobre é que é algo desconfortável de ler. O leitor senta-se na cadeira da vítima, mas não sabe o que acontece... A única coisa que sabe é que a vítima está a ser forçada a olhar para alguma coisa, mas não sabe o quê, e não sabe o que está a ser feito à vítima para a fazer olhar para a televisão. A justificação para isso, e é a justificação para o livro, é que a sua imaginação, a imaginação do leitor, é mais poderosa do que a minha. Porque todos os seus medos estão a ser modelados por você. Se eu inventar, se lhe contar o meu medo, você dirá: não tenho medo de pensar, porquê estar assustado. O que eu faço nessa cena é com que você, o leitor, imagine o seu próprio medo. E é o que se apanha da cena seguinte, quando Javier Falcón, o inspector jefe, descobre a vítima, quando lhe vê os olhos. É uma experiência chocante para ele.
Algumas pessoas disseram-me que ler «O Cego de Sevilha» é bom, mas em relação à cena do início...
Foi minha intenção que o leitor perceba que vai ser algo difícil. O livro chama-se «O Cego de Sevilha», sabe-se antes de se abrir que será algo sobre percepção, sobre a forma como se vê determinadas coisas, como se reconhece coisas sobre nós. Assim, a cena inicial, ao leitor que está na cadeira da vítima, reconhecer coisas dele próprio, isso custa, dói, magoa... De certa maneira, é metafórico, não é necessariamente uma experiência real, serve apenas para causar problemas ao leitor, mas quando ele lê o livro depois da cena inicial, depois continua a lembrar-se dela. O momento do medo...
Bom, houve quem me dissesse que esteve para desistir, e depois disse que foi bom ter continuado...
É assim que deve ser. Mas eu acho que nas três primeiras páginas não há a violência clássica. O leitor está apenas numa posição muito inconfortável. Porque está consciente de que alguém anda à sua volta, está na cadeira da vítima, mas não sabe de nada. É a imaginação do leitor que causa todos os problemas. Eu não fiz nada, apenas o pus nessa posição, e é ele, és você, o leitor, a fazer a si próprio sentir-se inconfortável, imaginando. Imaginando horror, imaginando horrores que não estão lá. Javier Falcón não sabe por que está assustado, por que está a viver aquele tremendo medo. Ele compreende que, no fundo, é algo que já viveu, e tem de fazer um processo de redescoberta, algo que lhe aconteceu na infância, algo relacionado com o seu pai, com a sua mãe.
A escrita dos diários...
Escrevi «O Cego de Sevilha» até ao capítulo catorze, e depois vi que tinha de parar e escrever os diários. Só a seguir é que continuei o livro.
E a cena inicial?
Escrevi-a primeiro.
Porque vão as suas histórias tanto para o passado? Chegam a recuar mais de meio século...
Parte é por eu ter interesse em História, e parte por ter interesse em olhar para dois países, Portugal e Espanha, que partilham muitas coisas na História.
Porque se interessa por estes dois países? Podia situar a acção dos seus romances noutros sítios...
Viajei muito quando era jovem. Estive na América, na Ásia. Foi nos tempos da universidade. E trabalhei em África. Uma experiência que resultou dessas viagens foi sentir o interesse em descobrir coisas de certas pessoas, mas no regresso senti desapontamento, porque não entendi nada das pessoas que vi. Falei com elas e não entendi nada delas, não entendi por que eram aquele tipo de pessoas...
E em Portugal e em Espanha? Não me diga que aí já as entendeu...
Não, foi igual. O que foi diferente foi o facto de para Espanha e Portugal ter viajado de bicicleta. De Londres para a Península Ibérica de bicicleta. Tentei perceber como os portugueses eram diferentes dos espanhóis, mas não consegui. Depois vim viver para Portugal, escrevi um guia, e aí tive de olhar para a História. Percebi as similaridades. Por vezes, Portugal e Espanha foram o mesmo, tiveram o mesmo rei, os mouros estiveram em Portugal e em Espanha, embora mais tempo em Espanha, mas é a mesma cultura nos dois países. A única diferença que consegui ver é que os espanhóis olham para o Mediterrâneo e os portugueses para o Atlântico.
Quando escreveu «Último Acto em Lisboa» e «A Companhia de Estranhos», muito centrados em Portugal, tinha intenção de os publicar em Espanha?
Tinha uma ideia. Um amigo meu vive em Sevilha, vou lá várias vezes por ano. Ele já lá vivia quando fiz a viagem de bicicleta, há 20 anos, em 1984.
Conseguia imaginar nessa altura que haveria de ser escritor?
Sempre pensei em ser escritor. Aos catorze anos já pensava nisso.
Escritor de que tipo?
Aos catorze anos...
Ou aos 20, ou 25?
Queria ser um grande poeta. É uma profissão louca. Mas foi o meu primeiro interesse. Tinha muito interesse na maneira como as palavras trabalham juntas. A musicalidade das palavras… Quando cheguei à escrita, comecei a ter mais interesse em escrever do que noutras coisas. O mais difícil aconteceu quando comecei a escrever o tipo de livros que escrevo. A história, isso é muito importante, se não se tiver uma história o leitor cansa-se, perdemos o leitor. É o maior desafio. Se olharmos para a ficção literária... Aí as coisas não acontecem. Na ficção que escrevo, as coisas têm de acontecer a cada página. Se as coisas não acontecem, o leitor deixa o livro. Isto é o ponto mais importante. Pode-se escrever maravilhosamente, mas se não se fizer com que as coisas aconteçam, e de forma credível... É a maior dificuldade deste tipo de ficção, é a maior dificuldade ao escrevê-la. Mais do que ficção literária, por causa da história.
Mas «O Cego de Sevilha» é ficção literária...
Não acho. Creio que a distinção é... É difícil distinguir. Nos meus livros, eu estou sempre a sacrificar algo. Sacrifica-se por causa da história, na busca de fazer as coisas acontecerem. O interessante para mim é: como faço eu isso, como consigo parar... Daí que eu diga que não é ficção literária. Porque aí não precisaria de me preocupar. Na ficção literária, há a preocupação de comunicar as próprias ideias, desenvolver essas ideias nas personagens, e a história passa a ser menos importante.
Bom, então «O Cego de Sevilha» é pelo menos mais literário do que os seus dois livros anteriores?!
Você, provavelmente, está certo. Acho que a diferença entre «Último Acto em Lisboa» e «O Cego de Sevilha», a principal diferença, é a escrita. Se você me dissesse que estavam ao mesmo nível, eu sentia que tinha falhado, que não tinha desenvolvido a minha escrita.
Eu continuo a gostar muito de «Último Acto em Lisboa»...
Por vezes, penso que com esse livro foi a primeira vez que tentei contar uma história, e isso é complicado. Antes, eu tinha quatro livros africanos... Conhece Chandler?
De nome...
Chandler, Philip Marlow... Eu escrevi quatro livros africanos, com um herói chamado Bruce Medway.
Que publicou em Inglaterra…
Sim, e nos Estados Unidos.
Vão ser publicados em Portugal?
Penso que os portugueses não estariam interessados. Estão escritos na mesma linha de ideias de Chandler. Só que Chandler escrevia na Califórnia em 1940, e eu escrevia na África Oriental em 1990.
Durante quanto tempo escreveu esses livros?
Escrevi o primeiro em 1992, e acabei o quarto em 1997.
Teve sucesso com eles em Inglaterra?
Os livros fizeram sucesso junto de um pequeno grupo de pessoas. Dez ou quinze mil pessoas.
E nos Estados Unidos?
Não foram comprados para aí quando os escrevi. Isso só aconteceu alguns anos depois, e agora estão bem, mesmo muito bem.
Que tipo de escritor é Robert Wilson em Inglaterra, isto em termos da ideia geral feita pelas pessoas?
Com os meus três últimos livros... Se falar de mim, a primeira coisa que as pessoas pensarão é em «Último Acto em Lisboa». Talvez agora também em «O Cego de Sevilha». Sou associado a thrillers literários. Para mim, um thriller literário é um thriller bem escrito. De qualquer forma, eu tento fazer mais uma distinção: quando um thriller literário termina, existe mais do que uma história, tem-se pensado noutras coisas além da história.
Quanto a Portugal... Tem ideia de como por cá olham para si como escritor?
Não há uma grande tradição de escrita de romances policiais e de thrillers em Portugal. Não creio que haja um mercado desenvolvido para este tipo de livros, como nos Estados Unidos ou na Alemanha, por exemplo. Trata-se de mercados diferentes. Em Portugal, há muito o que eu chamo leitores gerais. Acredito que em Portugal satisfaço as pessoas que lêem ficção literária e penso que também as que não se interessam por ficção literária, as que preferem ficção geral.
Vai continuar a situar as suas histórias na Península Ibérica?
A continuação de «O Cego de Sevilha»...
Quando acabou de escrever «O Cego de Sevilha»?
Creio que em 2002.
Saiu já há algum tempo em Inglaterra. Em Portugal demorou bem mais...
Bom, também mudei de editora...
E a continuação de «O Cego de Sevilha»?
São quatro livros, uma série de quatro livros. Estou a escrever o terceiro.
Qual é a ligação? Javier Falcón?!
Javier Falcón, sim. O interessante de fazer a série com a mesma personagem...
Porque não escreveu mais dois ou três livros com o Zé Raposo?
Zé Coelho...
Sim, Zé Coelho, de «Último Acto em Lisboa».
Zé Raposo é um bom nome...
Pode usá-lo à vontade, se quiser...
A única razão por que não fiz outra história com o Zé Coelho é a seguinte: eu não tinha outra história.
O Zé Coelho não estava ligado à história que investigava. Javier Falcón sim, faz parte da história...
O que senti com Javier Falcón foi que estava a desenvolver uma personagem. Quando trabalhava em «Último Acto em Lisboa», o Zé Coelho não era o mais importante. O que me interessava era a ideia do ouro nazi, o volfrâmio, Portugal e a Segunda Guerra Mundial. Mas eu não queria escrever um romance histórico, eu queria escrever um policial. Tinha que ter uma investigação criminal, mas arranjei um crime fora de comum, o assassinato de uma jovem que de alguma forma estava ligado a coisas que aconteceram na Segunda Guerra Mundial. O desafio era ligar as duas histórias, e ligá-las de forma a fazer o leitor sentir tensão. Era preciso criar essa tensão. Ou seja, tratava-se de uma abordagem diferente. Nos dois livros, «Último Acto em Lisboa» e «O Cego de Sevilha», os protagonistas são polícias, ambos de meia-idade. Uma pessoa que é inspector jefe tem de andar pelos 40... E o problema com os homens de meia-idade é que não mudam, já desenvolveram o seu carácter, a personalidade; muda-se mais dos 25 aos 35. Assim, há um problema se se quer escrever sobre uma personagem dessas: como fazer ela mudar? O meu desafio foi fazer mudar Javier Falcón do início para o fim de «O Cego de Sevilha». Ele era uma personalidade antes e passou a ser outra depois. Há uma mudança dramática em resultado de um trauma psicológico. No segundo livro, ele vai surgir uma outra pessoa. A boa coisa para mim é que nestes livros de séries as personagens são as mesmas. Muitos leitores gostam das personagens que eu desenvolvi. Lê-se muito, mas sempre um pouco diferente.
Talvez Javier Falcón seja mais, digamos assim, literário, do que o Zé Coelho... Mas outra coisa, você é um mestre a descrever os locais onde se desenrolam as suas histórias, a atmosfera de cada um, Lisboa da Segunda Guerra Mundial em «A Companhia de Estranhos», Tanger de há algumas décadas em «O Cego de Sevilha», que lembra o filme «Casablanca»; Tanger parece a preto e branco nos diários de Francisco Falcón. Como consegue isso?
Vivi em Espanha e em Portugal. Vejo os portugueses e os espanhóis, são diferentes, vou daqui a Badajoz e as pessoas lá são completamente diferentes das pessoas de Elvas. O que eu faço é olhar. Tenho a sensação de que são diferentes mentalidades. Quanto a Tanger, li muito, fui lá, apanhei o ambiente...
Precisa de ver os lugares...
Não. Eu não vi Berlim Leste de «A Companhia de Estranhos». Quando escrevi o livro não tinha dinheiro para ir a Berlim. Li livros, pedi a pessoas que me falassem da cidade, e que me falassem daquele tempo. Fui recentemente a Gigón e estava lá um cubano que leu «A Companhia de Estranhos» em castelhano, um homem que fez parte da segurança de Fidel Castro e foi mandado para a escola do KGB em Moscovo. Ele disse-me: a tua descrição da Alemanha de Leste é exactamente como era quando eu fui para o KGB em Moscovo. E eu disse-lhe que nunca tinha ido a Berlim Leste, que apenas li coisas que aconteceram, e sobretudo um guia de um jornalista norte-americano que se apaixonou por uma alemã ocidental, um jornalista que esteve em Berlim quando o muro caiu. Ele, para ficar na Alemanha com a rapariga, escreveu um guia que consiste em pequenos passeios por Berlim Leste, logo depois de o muro cair, de forma que era o mesmo cenário da Segunda Guerra Mundial. Ele punha o seu ponto de vista. E «A Companhia de Estranhos» é a guerra fria, depois da Segunda Guerra Mundial, e o incidente do livro na Segunda Guerra Mundial prolonga-se nos anos 60, 70, e em Berlim... Eu imaginei tudo coberto de neve, tudo uniformizado, a preto e branco, cinzento, sem cor. Com essa sensação, esse feeling, podia desenvolver as personagens. Com Zé Coelho, de «Último Acto em Lisboa», foi um amigo que tenho em Paço d'Arcos... Sei como é a vida em Paço d'Arcos, posso imaginar a história lá.
Os escritores portugueses não são muito de colocar Paço d'Arcos num romance... Ou a Avenida Duque d'Ávila, ou Carcavelos, ou o Cabo da Roca...
Eu vivi no Cabo da Roca.
Você usa esses lugares sem constrangimentos, e até o polícia Zé Coelho é um tipo normal em Portugal. Usou pessoas, locais, situações que os escritores portugueses dificilmente usariam. Tem consciência disso?
Conheço muito pouco da literatura portuguesa, como os escritores portugueses vêem o seu próprio país. Algo de Saramago, algo de Eça de Queirós, o que escreveu de Lisboa, mas não mais do que isso. Tenho de ver à minha maneira.
É livre para escrever...
O que é importante é o número de portugueses que vêm ter comigo e perguntam, em relação a «Último Acto em Lisboa», por exemplo: como sabia que era assim?
Também me lembro de alguém falar de que você descrevia os portugueses de há algumas décadas como baixos, de bigode e, creio, gordos...
Ao escrever «Último Acto em Lisboa», para desenvolver as personagens... Bom, eu estava muito interessado em saber como se vivia na ditadura de Salazar, e também em perceber o milagre do 25 de Abril, como os portugueses foram tão brilhantes para não terem uma guerra civil, que facilmente poderia ter acontecido. O impacto de tudo isso na sociedade portuguesa, e como os portugueses se desenvolveram depois do 25 de Abril... Eu não sabia o que tinha acontecido. Muitos portugueses vêm ter comigo e dizem-me: os portugueses não aprenderam muito com a história, em várias situações... Por exemplo, os alemães, aquilo que aconteceu na Segunda Guerra Mundial, eles preocupam-se em saber o que lhes aconteceu nessa altura, têm consciência... Muitos portugueses dizem que fazem o mesmo, mas não se questionam sobre o que aconteceu debaixo do regime de Salazar. Eu sempre senti que por cá se tinha decidido diferente do que aconteceu em Espanha, um país que teve uma guerra civil, em que as pessoas se mataram umas às outras, numa guerra política. Isso faz uma grande diferença na evolução do carácter. Uma guerra cria mais a tendência para se saber o que aconteceu na realidade. E os portugueses não tiveram isso. Os portugueses fizeram a revolução no regime de Caetano, depois veio a integração europeia, é diferente. Não têm nada de específico para olhar para trás e examinar, não é preciso uma reconciliação.
Voltando a Javier Falcón… Acabou o segundo livro com ele...
Saiu recentemente em Inglaterra. Em Portugal não sei quando será publicado. Espero que a Dom Quixote o compre.
De que tipo de história se trata?
O romance passa-se em Sevilha, num subúrbio rico da cidade, Santa Clara, a caminho do aeroporto. As construções foram feitas por norte-americanos, quando lá havia uma base da NATO. Eles foram-se embora e agora é uma zona chique. É estranho, porque não nada é típico de Espanha. O que há é casas individuais, a típica América. Parece um subúrbio de Los Angeles…
Mas com espanhóis...
Sim, é estranho, não parece Sevilha.
Qual é o título do livro?
Isso é complicado… Trabalhei com um título na cabeça, «As Mãos Desaparecidas». E o editor em Inglaterra não achou que fosse comercial. Tive de pensar noutro, e ficou «The Silent and the Damned» [«O Silencioso e o Condenado», traduzindo à letra, coisa que não servirá decerto para a edição portuguesa].
Em que estado reaparece Javier Falcón nesse livro?
Não é um começo fácil. Depois da história de «O Cego de Sevilha», ele passa um ano a fazer terapia psicológica. A seguir começa a trabalhar. Está a trabalhar há quatro meses, tem uma melhor relação com o inspector Ramirez, e então aparece o novo caso.
E a ex-mulher?
Javier Falcón não tem problemas com Inês. Só que o juiz Calderón, nas primeiras páginas, vai falar com ele. E diz-lhe: queria falar contigo primeiro, eu e Inês vamos casar.
Coitado...
Javier Falcón não tem problemas com Inês, mas esta notícia afecta-o.
Tem nos seus livros muitas histórias de amor. Não arranjou uma para ele?
É preciso paciência. Não pode acontecer tudo num só livro.
Os dois livros que faltam vão ter a acção em Espanha?
Sim, e com Javier Falcón. A diferença está na estrutura e nas ideias.
Quando pensa acabar a série?
Devo acabar o terceiro livro no fim do próximo ano, e o quarto lá para 2008, ou talvez mesmo em 2007.
Que tipo de casos poderia Javier Falcón investigar no Alentejo?
O que há para investigar onde não acontece nada?
Mas o que poderia acontecer?
A única coisa talvez pudesse ser algo ligado à máfia russa. Há muitas pessoas a traficarem da Europa de Leste para Espanha e Portugal. Essa máfia está bem presente em Lisboa, no Algarve e na Costa del Sol. Prostituição, Internet, fraude… O dinheiro é usada na construção civil, no Algarve e na Costa del Sol. Branqueamento de capitais…
Portugal, ou melhor, o Alentejo, é a sua base?
A base é mais em Inglaterra, em Oxfordshire. Mas passo muito tempo aqui, e também em Espanha.
Em Sevilha, a cidade de Javier Falcón?!
Sim. Mas costumo passar mais tempo em Portugal.
Sente diferenças entre escrever em Portugal e em Inglaterra?
Prefiro escrever em Portugal. Aqui é mais calmo, não tenho distracções. Faço pesquisa e depois começo a escrever. Logo bem cedo, às 5.30 da manhã, e continuo até ao almoço.
Vive num monte isolado [algures entre o Redondo e Estremoz]. Como consegue descrever Sevilha, as festas da Semana Santa, por exemplo, nesta quietude?
Já vi Sevilha, tenho as imagens na cabeça, o feeling.
Não tem a tentação de escrever sobre árvores e pássaros?
O que se vê aqui desaparece na imaginação.
A sua actividade é escrever?
Sim.
Desde...
Como principal actividade, desde 1998. Só escrever. Antes tinha de parar de vez em quando e ir a Inglaterra ganhar dinheiro. Trabalhava em Publicidade. Podia fazer mais num mês do que a escrever um livro durante um ano.
Agora já não tem esse problema...
Digamos que não tenho que me preocupar com dinheiro.
E é diferente escrever assim?
Uma pessoa fica nervosa quando consegue o seu primeiro contrato. Bom, antes eu escrevia por pouco dinheiro, dez mil libras por um livro… Agora penso no trabalho, não no dinheiro, isto depois de ter conseguido bons contratos.
Onde os conseguiu?
Tenho um em Inglaterra, outro nos Estados Unidos e outro na Alemanha.
E Portugal?
Em termos de negócio, Portugal tem uma pequena dimensão. Há poucos leitores, de forma que não se consegue um grande contrato.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Literatura comparada

A revista «Sábado» manda-me todas as quintas-feiras, por e-mail, uma divulgação do número que está a colocar nas bancas. O que chegou hoje refere que «o livro que sucede a ‘Equador’ sai já na próxima quinta-feira»; depois coloca um título (da peça), «A nova saga de Sousa Tavares», e três tópicos, «como ele descobriu por acaso num voo da TAP a história verdadeira que inspirou o romance», «só seis pessoas tiveram autorização para ler as 700 páginas de ‘Rio das Flores’» e «nos últimos quatro anos, fez várias viagens de pesquisa ao Brasil e escreveu entre Lisboa e o Alentejo». É uma boa notícia, depois do excelente «Equador», ter um novo romance de Miguel Sousa Tavares para ler. Lembro-me de que a leitura de «Equador» constituiu uma enorme satisfação para mim, capaz até de me fazer não ligar muito a alguns descuidos com o português e também a alguns erros factuais, como a confusão logo a abrir com o senhor Lesseps e o canal de Suez. Espero que com o novo romance se repita a satisfação, e se o português for cuidado, tanto melhor. Para já, fica-me alguma desilusão no título: não parece lá muito empolgante (mas também não é nenhum desastre).
Quanto aos tópicos da «Sábado», dei por mim a pensar no que aconteceu com o meu último romance, «O que Entra nos Livros»… Primeiro tópico, a descoberta da história, por acaso, num voo da TAP: a minha foi descoberta, pelo menos a maneira de contar a história em que tanto pensava, uma noite, tardíssimo, quando parei num sinal vermelho em Pegões, no habitual regresso de Lisboa, do trabalho, para Montemor. Segundo tópico, só seis pessoas tiveram autorização para ler as 700 páginas: no meu caso são cerca de 200 páginas e só uma pessoa leu (eu próprio), além da revisora. Terceiro tópico, quatro anos, com viagens ao Brasil e escrita entre Lisboa e o Alentejo: eu escrevi durante cerca de um ano, sem viagens ao Brasil – apenas uma série delas a Évora –, e escrevi sempre no Alentejo (tirando umas páginas numa esplanada da Praia do Barril, em Tavira), na altura em que a selecção portuguesa andava a dar cartas no mundial da Alemanha.

Escritores no meu romance (20)

Camilo José Cela, Espanha
Naquela noite, o mágico velhinho, acordeonista da casa de putas com a alma tão limpa como a açucena de São José, interpretou a mazurca Ma petite Marianne com deleite muito especial…
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 54)

O momento fantástico de Makukula

Mais uma etapa na caminhada para o Euro 2008, descrita por exemplo aqui. Eu tinha esperanças em Makukula, que me parece um excelente jogador, muito mais empolgante do que por exemplo os pauletas que por vezes conseguiam dar cabo da paciência a qualquer adepto. O segundo golo, de Ronaldo, e depois o das cazaques (acho que se escreve assim) nada mudaram, já nos descontos; o que foi mesmo fantástico foi o golo de Makukula. Duas notas: um jornal desportivo arranjou para título da crónica on-line do jogo uma frase que começava por «Matrakukula»; mas pior fez uma rádio logo a seguir ao golo, quer dizer, um dos relatores, que não parava de gritar «Makakula, Makakula».

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Frases mal ditas - 8

«Morro pelos adeptos.»
Simon Vukcevic, jogador do Sporting, 17.10.07

Boicote

Eu, na mesma luta do João Villalobos.

Capas do «Record» e de «A Bola» em dia de jogo da selecção











A barbárie

Pode ler-se aqui alguns excertos. Chocou-me, mais uma vez, ler alguns dos nomes envolvidos na barbárie. Enfim, puta que os pariu…

Hoje, no Cazaquistão

Hoje, na terra deste senhor, como será? Acho que Portugal pode ganhar, até porque este excesso de confiança (bandeira a dobrar e tudo) pode prejudicar o onze do Cazaquistão. Mais uma vez, espera-se que Scolari não agrida nenhum espectador.

Em grande

A não perder, o Nuno Costa Santos em grande no congresso do PSD.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Escritores no meu romance (19)

Mário de Carvalho, Portugal
O mágico abriu os olhos, numa grande lassidão, sem saber muito bem se estava aliviado ou não. Todos os três encheram o peito de ar e respiraram fundo. Exaustos.
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 83)

Isso da nova constituição

Um novo blog, e logo a abrir com um texto bem interessante.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

La siesta

Um dos meus gatos a dormir a sesta em cima de um exemplar de um livro de contos de Juan José Millás (que traduzi). Lá ao fundo, no montado, anda uma vaca a pastar.

domingo, 14 de outubro de 2007

O bloqueio

A verdade é que não estou nada interessado nisto. Quando o protagonista da história estiver de novo a trabalhar, voltarei a seguir o seu percurso com atenção. Por isso, pouco me importa o bloqueio.

sábado, 13 de outubro de 2007

Um suspiro de alívio

Suspiro pela vitória da selecção em Baku, mas não só, também por dois dos outros resultados de hoje no grupo de Portugal, que tornam o percurso até ao final menos perigoso do que ontem se supunha. O regresso de Ricardo Carvalho notou-se (pela positiva, claro), a estreia de Miguel Veloso a mesma coisa, e Quaresma, enfim, o que é que se pode dizer?; é bom, muito bom, mas por vezes (na selecção quase sempre) não se percebe o que lhe vai na cabeça para só mesmo em casos excepcionais passar a bola a um companheiro.

Hoje, no Azerbaijão

Esperemos que hoje a selecção portuguesa vença no Azerbeijão e que o senhor Scolari não agrida nenhum espectador.

Escritores no meu romance (18)

Gonzalo Torrente Ballester, Espanha
Um pouco antes notou que apareciam os livros de Paul Auster, mas entre Bartlett e Auster ainda havia outros autores, como Richard Bach ou Gonzalo Torrente Ballester.
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 125)

O congresso

O céu azul, tempo de sol, muita neve e laranjas com fartura. Foi por aqui, bem no meio do Alentejo, em Janeiro do ano passado.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Pergunta discreta

Afinal, quem terá mandado os polícias ao sindicato?

Pura rotina

Afinal não deu em nada o inquérito à visita tipo PIDE de polícias a um sindicato de professores na Covilhã. O ministro da Administração Interna já o veio confirmar. Rui Pereira sempre me pareceu uma figura um bocado sinistra. Ao ver hoje as imagens dele a dizer que tudo não passou de «procedimentos rotineiros», a impressão que tive foi a de que ele, se pudesse viajar no tempo, não haveria de se atrapalhar muito num governo de Salazar.

Escritores perigosos

Depois do perigoso romancista polaco de que se falou há uns dois meses, agora um escritor e poeta mexicano ainda pior. Este último link foi deixado por um anónimo na mensagem do post anterior.

Escritores no meu romance (17)

Juan Rulfo, México
O livro chamar-se-ia «Pedro Páramo» com ele lá dentro? Nunca tinha pensado nas coisas dessa forma…
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 145)

O lobo e os guerrilheiros

O título deste post não é bem meu, é adaptado do de um romance do escritor Bento da Cruz (o premiado «O Lobo Guerrilheiro»). Fiz a adaptação para este excerto da entrevista recente de António Lobo Antunes à revista «Visão» (não li a entrevista, que tem sido muito comentada); o excerto foi-me enviado por e-mail pelo meu amigo (e grande benfiquista) Carlos Perdigão.
V: Ainda sonha com a guerra?
ALA: (...) Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.
V: Parava a guerra?
ALA: Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?
V: Não vou pôr isso na entrevista...
ALA: Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?
Já agora, informações sobre o autor de «O Lobo Guerrilheiro», aqui e aqui, por exemplo.

Começos prometedores - 9

«Foi ele que avisou que Agustina Bessa Luís ‘corre o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música’.»
Início do ensaio «Obscuro, crítico, 45 anos», incluído no livro «José Saramago – A Luz e o Sombreado», de Fernando Venâncio, 2000 (ed. Campo da Letras); o ensaio, sobre a actividade de Saramago como crítico na «Seara Nova» (anos 60 do século passado), foi originalmente publicado em 1994, no «Jornal de Letras».

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Doris Lessing

O Nobel chegou hoje, aos oitenta e sete anos.

O ornitorrinco guerreiro

Pacheco Pereira, no mesmo programa da «SIC Notícias» (ver post anterior), disse também a propósito do livro e do PSD (o subtítulo do livro é «Textos sobre o PSD») que o seu partido é «um partido de ornitorrincos», que ele próprio é «um ornitorrinco». A fazer fé nisto, talvez esteja aqui o verdadeiro retrato do menino guerreiro.

O ornitorrinco do paradoxo

Pacheco Pereira aproveitou uns cinco ou dez minutos do programa em que às quartas à noite participa na «SIC Notícias» para publicitar o seu livro que está aí a rebentar – «O Paradoxo do Ornitorrinco», segundo ele um contributo para o congresso do PSD, onde não tenciona estar presente (porque não é «maluco», ou «doido», agora já nem me lembro bem a palavra que usou). O livro é da Alêtheia, de Zita Seabra.
Nota: na foto, o ornitorrinco está de cabeça para cima, obviamente, embora vá a nadar para baixo.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Escritores no meu romance (16)

José Eduardo Agualusa, Angola
Estavam ali, à beira da estrada, meio escondidos pelo fragor do crepúsculo – o mágico velhinho e os seus lagartos.
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 59)

Textos sobre livros - 41

«Em Busca», de Naguib Mahfouz (Caminho, 154 pp.)

A busca de Saber

Em alturas de anúncio do Nobel, um pequeno grande romance de um autor fabuloso que a Academia Sueca deu a conhecer ao mundo ocidental: o egípcio Naguib Mahfouz.

Em 1988, a atribuição do «Prémio Nobel de Literatura» permitiu a descoberta em Portugal, e um pouco por todo o mundo ocidental, do escritor egípcio Naguib Mahfouz. Nessa altura, ele foi apresentado como tendo nascido em 1911 (dia 11 de Dezembro), no Cairo, mais precisamente no bairro Gamiliyya, como sendo formado em filosofia e também como autor de cerca de trinta romances e de mais de uma centena de contos. Tinha publicado o primeiro livro em 1939, aos vinte e oito anos.
Parecia estar a falar-se de um desconhecido, mas não, nada disso. Havia muitos anos que Naguib Mahfouz atingira a fama, sendo lido por muitos milhões de pessoas um pouco por todo o mundo árabe. Talvez pudesse até dizer-se que se estava na presença do maior romancista do mundo árabe. O mérito do Nobel foi, por isso mesmo, o de ter trazido para o alcance do comum leitor ocidental a obra de um escritor fabuloso.
Este foi o primeiro livro que li de Naguib Mahfouz. Chama-se «Em Busca» e conta a história de Saber, um homem que procura o pai que nunca conheceu e que julgava morto. Isso acontece quando a sua mãe regressa a casa para morrer, após cinco anos na prisão.
«Limpando o rosto, apesar do tempo frio, ela disse: ‘Não é da doença, mas sim da cadeia. Adoeci na cadeia. A tua mãe não foi feita para cadeias. Eles diziam que era do meu fígado, da tensão, depois era o coração, raios os partam. Posso alguma vez voltar a ser o que era?»
Basima Omram, a mãe de Saber, estava bem diferente dos tempos de jovem. «O riso dela, que tinha ressoado em todos os salões de Alexandria, agora mal conseguia causar a mais leve vibração no seu corpo volumoso e anafado.» Com pouco mais de cinquenta anos, no leito de morte, desvenda ao filho uma parte da sua história, ou da história dos dois.
«’E ir para onde?’, perguntou ele, ressentido./ ‘Para junto do teu pai’, respondeu ela numa voz quase inaudível./ Ele ergueu as sobrancelhas de espanto e exclamou: ‘O meu pai...’/ Ela acenou a cabeça./ ‘Mas ele está morto. A mãe disse-me que ele morreu antes de eu ter nascido.’/ ‘Eu disse-te isso. Mas não era verdade.’»
Basima Omram quase nem tem forças para falar. Mas mesmo assim precisa de continuar.
«’O nome dele está na tua certidão de nascimento, Sayed Sayed el Reheimy.’ O olhar dele enevoou-se à medida que ela prosseguia: ‘Ele apaixonou-se por mim há trinta anos. Foi no Cairo.’/ ‘Cairo... Então ele nem sequer está em Alexandria.’/ ‘Sei que o teu verdadeiro problema será encontrá-lo.’/ ‘Por que não tentou ele encontrar-me?’/ ‘Ele não sabe da tua existência.’/ (...)/ ‘Ele amava-me. Eu era uma rapariga bela e perdida. Ele guardou-me em segredo, num cofre de ouro.’/ ‘Ele casou consigo?’/ ‘Sim, ainda tenho a certidão de casamento./ ‘Ele divorciou-se de si?’/ Ela suspirou: ‘Eu fugi.’/ ‘Fugiu?’/ ‘Fugi ao fim de uns dias. Estava grávida. Fugi com um zé-ninguém.’»
É então que começa a busca de Saber, num romance onde os grandes dramas da existência humana estão presentes a cada página. Afinal, uma marca do grande escritor egípcio, tal como a preocupação com as injustiças que sempre viu no seu país, e a preocupação em preservar e recriar a memória colectiva do seu povo.
A esta postura não terá sido alheia a tentativa de assassinato que sofreu em 1994. Os fundamentalistas não gostaram das suas declarações a favor da paz com Israel, nem das palavras que proferiu contra a condenação à morte de Salman Rushdie, ordenada por Khomeini. Consideraram também um romance seu como blasfemo à religião.
Naguib Mahfouz morreu no dia 30 de Agosto do ano passado, aos 95 anos, na cidade onde nasceu e sobre qual tanto escreveu (ver, por exemplo, o romance «A Viela de Midaq», também da Caminho).

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

O professor de José Mourinho

Uma entrevista com um professor de José Mourinho. Coloquei-a no blog «Mundo RH». Para ver, clicar aqui. Alguns excertos do que disse Manuel Sérgio…
«O que sempre o distinguiu foi o facto de ser uma pessoa que pensava e que levantava perguntas. Era muito extrovertido.»
«Tudo o que prevê, ele acerta. E ganha tudo. Se diz que vai ganhar o campeonato é porque vai. Há-de errar noutras coisas, mas no trabalho não.»
«Ele é extremamente inquieto, quer sempre saber mais. É um homem de estudo, que se actualiza permanentemente.»
«A primeira coisa que ele faz quando chega a um clube é impor-se aos chamados ‘donos do balneário’ e demonstrar que ali quem manda é ele. E se não lhe obedecerem são excluídos. Desde garoto que é um líder.»
«Lembro-me perfeitamente de ele ter dito que o Real Madrid era o único clube do mundo para onde não gostaria de ir porque de certeza que se incompatibilizaria com quase todos os jogadores.»
«O Peseiro não tem a coragem e a perspicácia inata do Mourinho para ver os problemas.»
«O José Mourinho terá sucesso em qualquer lugar onde se lhe dê funções de liderar o treino. Claro que, e citando Ortega Y Gasset, ‘eu sou eu e a minha circunstância’. Ele pode ter uma circunstância de tal maneira adversa que não o deixem trabalhar.»

Escritores no meu romance (15)

Ben Rice, Inglaterra
… quando estou com Humph no Moozeum falamos os dois com ela e ainda hoje se forem a Lightning Ridge podem ver pessoas parar no meio do que estiverem a fazer para falarem com Kellyanne Williamson, tal como ainda hoje se detêm para falarem com o mágico velhinho e Dingan e com a opala dos seus sonhos.
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 166)

Histórias do Agualusa

Sabem aquela rubrica de livros do Marcelo Rebelo de Sousa, aquela da televisão em que ele recomenda livros e em que se fica com a sensação de que ele poderia dizer para cada um deles «não li mas gostei»? Foi o que senti no jogo do Sporting com o Guimarães (Sporting 3, Guimarães 0; Izmailov 2 e Tonel). Não vi, mas gostei, e muito (sobretudo pelo resultado). Ou melhor, até vi um bocado, uma meia-hora, quinze minutos na primeira parte e mais quinze na segunda. Deu para assistir ao primeiro golo, dos três o que mais me fez suspirar de alívio, por alguns receios que tinha da equipa do Guimarães, e pelo que percebi que tinha acontecido na primeira parte.
A meia-hora inicial do jogo não vi porque estava a contar histórias ao meu filho para ele adormecer; eu queria ir ver o jogo e ele pedia sempre mais uma história, «uma história do Agualusa», «uma história do Agualusa», sempre mais uma, não do escritor angolano mas em que o escritor angolano participa activamente. É assim desde o lançamento do meu último livro, apresentado precisamente pelo José Eduardo Agualusa; o meu filho esteve lá e desde então pede «histórias do Agualusa», e eu vou-lhe contando, histórias nas quais acabei por meter outro escritor angolano – e também meu amigo –, o Ondjaki, assim como acabei por meter mais umas pessoas aqui das redondezas (um carpinteiro, o dono de uma loja…); e eu, os meus cães, os meus gatos e mais umas águias também entramos, e uns gatos-bravos aí do montado. Enfim, uma festa, às vezes até com o Sporting a entrar, e sempre a ganhar. São assim as «histórias do Agualusa». Numa delas, o próprio José Eduardo Agualusa já ganhou o Prémio Nobel da Literatura, tal como o Ondjaki, e um dos meus cães já viajou pelo mundo inteiro numa outra. É o que se quiser. Portanto, primeira meia-hora nada de Sporting a jogar contra o Guimarães, apenas «histórias do Agualusa».
Depois, quinze minutos para perceber o que se passava (quinze minutos em que fiquei muito apreensivo), a seguir a entrada melhor na segunda parte e também o primeiro golo, até que lá tive de sair para ir buscar uma pessoa que vinha cá a casa. Foi por isso que ouvi o segundo e o terceiro golos no rádio do carro. A única coisa que achei despropositada foi a entrada de um não-jogador na equipa (Purovic, que no primeiro golo já ia todo desalvorado em fora-de-jogo, valendo que Izmailov não lhe passou a bola, preferindo picá-la por cima do guarda-redes). Vi também um remate disparatado de Polga, que talvez pense que agora é só puxar a pata atrás e rematar para marcar golos (era bom…). Outra coisa, percebi que os comentadores falavam em ter havido uma falta antes do primeiro golo – não vi nem uma repetição, mas se falaram, deve ter sido; até porque Paulo Bento acabou por depois aparecer a referir que mesmo assim na conta-corrente dos erros da medíocre arbitragem portuguesa o Sporting ainda estava credor (era melhor ter ficado calado, porque não é por nos roubarem uns penalties que depois devemos ser beneficiados noutra coisa).

domingo, 7 de outubro de 2007

Fascismo

Hoje falou-se novamente em fascismo.

A corrupção do Estado

Notável artigo de Vasco Pulido Valente hoje no «Público». Pode ler-se aqui. «Se por acaso caísse do céu a 'transparência' que o dr. Cavaco deseja, metade da primorosa elite do nosso país marchava para a cadeia como um fuso.»

sábado, 6 de outubro de 2007

Textos sobre livros - 40

«Terra Papagalli», de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta (Quetzal Editores, 181 pp.)

Na terra dos papagaios

As aventuras e as desventuras do português Cosme Fernandes na «Terra dos Papagaios». Um romance notável, de dois autores brasileiros que a seguir escreveram um outro, que mete uma alface, um verme e um político (o político engole o verme).

«Chegámos ao Tejo pela manhã. Antes de embarcar, olhava para os lados na esperança de encontrar Lianor, causa e remédio das minhas tristezas. E quando estávamos a um tiro de besta da nau, não sei se por efeito da muita tristeza ou da fome, olhei para o céu e vi que as nuvens tomavam a forma do seu perfeito rosto, que apareceu sorrindo para mim./ Aquela visão da minha senhora, assim tão digna e bela, pôs-me num estado de tamanha sandice que desatei a chorar e a dar murros na cabeça e braços, e então, reunindo todas as minhas forças, olhei para o céu e arranquei do peito o mais potente grito que jamais dei em minha vida:/ – Espera-me que eu me guardarei para ti! – mas quando pensava que ia ouvir sua maravilhosa voz respondendo lá do céu: ‘Também eu me guardarei, meu adorado!’, ouvi apenas a de um soldado inclemente que disse: ‘Anda, bode judeu!’, e deu-me com um pau nas costas./ Foram essas as últimas palavras que ouvi em terras portuguesas antes de entrar nesta nau que vai comandada por Pedro Álvares Cabral, fidalgo que jamais capitaneou um barco mas que está a comandar a maior esquadra já reunida em todos os tempos, com treze naves muitíssimo bem-armadas. Puseram-me num canto da embarcação juntamente com Lopo de Pina e outros vinte condenados que eu não conhecia./ Partimos então de Belém com bom tempo e mar tranquilo. A grande cidade de Lisboa foi-se apequenando à nossa vista até desaparecer, ficando só os cumes da serra de Sintra e a grande cópia de caravelas, navios, barcas, batéis, galeões, almadias, bergantins e fustas que se amontoavam na ribeira./ Mas isso tudo se foi e neste instante só estamos a ver águas e céu.»
***
Isto escreveu Cosme Fernandes no seu diário, no dia nove de Março de mil e quinhentos. Um diário que se viu forçado a terminar nem dois meses depois, a um de Maio, já em Terras de Vera Cruz, por ordem do próprio Pedro Álvares Cabral.
De qualquer forma, não é por falta de diário que ficamos sem saber o destino de Cosme Fernandes, um cristão-novo apaixonado por uma donzela da alta sociedade portuguesa, de seu nome Lianor. E que por essa paixão se viu condenado ao exílio no Novo Mundo. As aventuras de Cosme Fernandes continuam até ao final de «Terra Papagalli» (a imagem é da capa da edição brasileira), um romance de José Roberto Torero (escritor e realizador) e Marcus Aurelius Pimenta (jornalista e guionista), ambos brasileiros. Já agora, de referir que os dois escreveram logo a seguir um romance chamado «Os Vermes», onde juntam uma folha de alface, um verme e um político, que acaba por engolir o verme (e de repente este vê-se num ambiente totalmente desconhecido, o organismo humano, ou, pior ainda, o organismo de um candidato em campanha numa capital federal do Brasil).
Mas voltando a «Terra Papagalli», trata-se de um retrato mordaz do Brasil do século XVI. Um mergulho nos tempos da chegada dos portugueses, através da narração do referido Cosme Fernandes, dito «Bacharel», que terá sido um dos degredados esquecidos do primeiro desembarque na «Terra dos Papagaios».
E Cosme Fernandes tem muito para contar sobre o que viveu do outro lado do Atlântico. E sobre o que aprendeu, principalmente os dez mandamentos para sobreviver em terras tão selvagens. A título de curiosidade, aqui fica o último: «Naquela terra de fomes tantas e lei tão pouca, quem não come é comido.»
Talvez por isso Cosme Fernandes andasse sempre de olhos bem abertos e de pé atrás. E admirasse Santo Ernulfo, que disse que «os erros são tragédias para quem os comete e comédia para quem deles ouve falar». Lá saberia por quê.

Escritores no meu romance (14)

Lídia Jorge, Portugal
Percebeu que nessa parte era a própria Júlia a narradora. Falava de um homem a esperá-la à porta de casa num carro que depois não queria pegar. E ela tinha descido com um dálmata e com o mágico velhinho…
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 165)

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O jogador previdente

Scolari disse hoje que falou com Dragutinovic (acho que é assim que se escreve) e que já está tudo esclarecido entre os dois. A coisa aconteceu na presença de pessoas da UEFA. Scolari foi à Suíça, mas Dragutinovic não, preferiu entrar na conversa via telefone, a salvo da mão de Scolari. Chamem-lhe parvo…

O espião, a fama e a pressão

A propósito do presidente do Benfica (post anterior)… Hoje ouvi-o a sair-se com uma coisa nova. Depois do «espião que veio do frio» (le Carré) e da «fama que vem de longe» (Constantino), Luís Filipe Vieira inventou a «pressão que vem de fora».

Frases mal ditas - 7

«Já tenho muitos anos de Benfica.»
Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, 05.10.07

Escritores no meu romance (13)

Paulo Moreiras, Portugal
Partiria depois de te ter dado um nome, e assim ficaste: Álvaro Velhinho.
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 141)
foto de Paulo Cunha

A frase da noite

«O árbitro só faltou pedir autógrafos aos jogadores do Bayern de Munique.»
Jorge Jesus, treinador do Belenenses (ontem à noite, depois do jogo com o Bayern)

Scolari, Scolari, Scolari

Scolari acha que «o seu nome e imagem foram um pouco reabilitados» com a redução do castigo pela UEFA. Lê-se aqui. Eu acho que não; o nome e a imagem da UEFA é que ficaram um pouco debilitados com a decisão de lhe reduzirem o castigo (que já tinha sido brando).
Scolari diz também que fez as pazes com o jogador sérvio a quem deu um soco. Acho óptimo, mas o jogador não deve ter pedido conselhos ao seleccionador sérvio, o espanhol Javier Clemente, que ainda ontem na rádio ouvi a dizer cobras e lagartos de Scolari (embora também dissesse que era capaz de lhe ir apertar a mão, embora não referisse se tencionava levar capacete ou não).
Scolari acha (aqui) que o adjunto tem tantas condições técnicas como ele para dirigir a selecção nos três jogos antes do seu regresso no fecho da fase de qualificação, com a Finlândia. Quem sou eu para dizer o contrário? Ainda por cima, Scolari diz que o adjunto (Flávio Murtosa, na foto em segundo plano) é «mais calmo e tranquilo». Eu acredito.

A Relva - Parte IV

«A Relva, o Regresso». Onde é que eu já vi este filme?

Lobo Antunes e também José Mourinho

Dois «special ones», ou um «special one» e um «special two», num post e nos respectivos comentários; Lê-se aqui.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Uma perspectiva sobre o romance «O que Entra nos Livros»

Coloco abaixo o texto de suporte da intervenção do Prof. José Vilhena Mesquita, da Universidade do Algarve, na apresentação do meu romance «O que Entra nos Livros» (29.09.07, em Monchique).

Aquilo que verdadeiramente entra no livro de António Manuel Venda
Por José Carlos Vilhena Mesquita
A primeira questão que se sobrepôs à leitura deste livro de António Manuel Venda foi precisamente a mais elementar, isto é, a de saber se efectivamente estava, ou não, perante um romance na verdadeira acepção da palavra, e do teórico conceito que lhe é inerente. O trago de dúvida com que fiquei no final da sua leitura obriga-me a definir os termos e os conceitos em que me exprimo. Um pouco à laia de Voltaire, urge pois aclarar os conceitos com que nos expressamos para que a sintonia das palavras não se disperse na confusão ou no calor da discussão.
Comecemos por definir a palavra «romance», para perceber sem mais delongas aquilo que traduz o seu conceito. A palavra, na sua nudez original, deriva do étimo latino romanice, do qual descende romanicus, que significa, em latim popular, uma narrativa, verdadeira ou imaginária, escrita em prosa ou verso, repartida por cenas, quadros ou capítulos, pejados de pormenores e longas descrições, cuja acção se desenrola através de várias personagens, de entre as quais só algumas assumem o protagonismo de se tornarem no centro da diegese. Isto no que concerne à palavra.
Porém, no que incumbe ao conceito de romance, importa dizer que só muito tardiamente é que o mesmo foi equacionado, numa perspectiva mais simples, mais sintetizada, mas não menos abrangente. Com efeito, só no declinar do século XVIII é que se definiu o romance como «uma narração em prosa de uma acção fictícia que tem por quadro a pintura de costumes». Dito desta forma não há nada mais simples, nem menos directo. E sendo assim, a obra «O que Entra nos Livros», de António Manuel Venda, integra-se inquestionavelmente, tanto no conceito como na palavra, na correcta designação de romance. Não unicamente de «costumes» – porque isso está fora de moda e qualquer dia nem existe –, mas de um maravilhoso fantástico, a que mais adiante me referirei com relativa acuidade.
Ao longo da História da Literatura Portuguesa publicaram-se diversos tipos de romances: históricos (Romantismo); sócio-moralistas (Naturalismo), ético-científicos (Realismo); político-revolucionários (Neorealismo); anti-dogmáticos e universalistas (Modernismo) psico-surrealistas (Pós-Modernismo); e outros que nem sei até como qualificá-los. Em todos estes modelos de criação ficcionista o que está em causa são os costumes das sociedades humanas no tempo e no espaço, numa espécie de simbiose, ou de intercepção espacial, entre a História e a Sociologia.
Ora acontece que o romance «O que Entra nos Livros», afasta-se de todos estes modelos classificativos, ou de todas os movimentos literários que acabei de enunciar sumariamente, muito embora o seu discurso narrativo se integre naquilo a que chamo o «modernismo milenarista». Isto é, na tentativa de criação artística através do pictorismo ficcionista da palavra, ascendendo a patamares supra-fantasistas, que rapidamente se transformam numa diegese fantástica, surreal, imateral e anti-ascética. Nada de novo, diria, se com isso não se cortassem definitiva e diametralmente os cânones da ficção dominante. O paradigma romancista, na sua feição soberana e imperante, preocupa-se com a construção de grandes quadros sociais, ao longo dos quais o autor vai fazendo uma descrição evolutiva dos interesses percepcionais e dos seus consequentes jogos de poder, assim como das virtudes e dos defeitos dos protagonistas, dos assimilados ou dos desintegrados numa sociedade enquistada nos defeituosos costumes do individualismo social. O romancista torna-se assim num crítico e num psicanalista da sociedade, no que isso tem de mais contraditório e de paradoxal, usando geralmente o amor e as relações laborais nas suas conexões e correspondências com as intrigas que vulcanizam os diversos poderes em que se reparte a vida real. O romancista é, em suma, um ficcionista do real.
No caso presente, a natural bonomia de António Manuel Venda, a sua candura bucólica, a sua inocência e pureza de carácter, insuflada de um certo torpor algarviista, influenciou decisivamente a sua inspiração e consequente criação artístico-literária, visivelmente enraizada nos telúricos vergéis da sua saudável Monchique, onde os romanos procuravam a cura para os seus achaques através do princípio natural da água, ou seja, o termalismo, modernamente designado por SPA, sigla romana que se traduz por «salute per aqua».
Neste livro, como aliás, em quase todos os outros da sua lavra, a terra-natal, o Algarve e a peneplanície alentejana, que lhe serve hoje de residência e de ninho conjugal, estão presentes com uma insistente acuidade, e até por vezes com inusitado protagonismo. O mesmo acontece com as reminiscências da sua infância e juventude, aqui e ali afloradas, num contrastante quadro dos sentidos, entre a fresca e verdejante montanha e as estivais praias do barlavento algarvio. Essa enriquecedora vivência, a que certamente se conjugaria uma marcante e muito atenta convivência social, serviu-lhe, e provavelmente ainda lhe servirá, para povoar de vida os seus romances, os seus contos e as suas novelas, cujo inquestionável talento, e insofismável sucesso literário, enobrece hoje não só a literatura portuguesa como, muito particularmente, o seu e nosso Algarve.
Relativamente ao estilo, à concepção narrativa deste livro, direi que impera na estruturalização dos seus capítulos uma insistente, e consistente, preocupação realista da envolvente descritiva, através do recurso ao enquadramento paisagístico em que decorre a diegese. A descrição de aves e animais que abundam no montado onde reside, dos pormenores sobre a flora alentejana e sobre o parco coberto florestal, a contrastar com a sua Monchique originária, é uma constante neste romance. A descrição das estradas por onde circula, com as alarmantes brigadas de trânsito (que por insistência descritiva acabam por o interceptar quase no final do livro), assim como as pessoas que na berma da estrada, nos largos e jardins das aldeias, aguardam serenamente o decurso dos seus dias, numa entediante monotonia. Apesar de aqui e ali depararmos com uma certa acintosidade crítica, contra a ditadura salazarista, mas também contra os políticos actuais, a que não escapam os autarcas, o certo é que a acção do romance decorre de forma lenta e parcimoniosa, à imagem do clima mental, mas também socioeconómico, que se vive nas terras sulinas. Mesmo com essa aparente lentidão, desse torpor ao Sul, a minha atenção de leitor (ainda que pouco disponível para a ficção literária) não se conseguiu despegar das páginas que se iam sucedendo, envoltas no crescente mistério da fantasia que paira por detrás das palavras.
O autor, na sua prodigiosa imaginação, assume-se, quase despudoradamente, como personagem principal, como confidente do leitor, e por vezes como um cavaqueador tertuliano, do qual não nos podemos divorciar. Num estilo pós-moderno, António Manuel Venda encanta-nos com a fantasia dum «mágico velhinho», figura levemente fantástica, duma bonomia desarmante e quase infantil, muito invulgar por causa dessa inofensividade, contrária à agressividade das personagens surreais que caracterizam este género de literatura.
Acima de tudo, o livro está primorosamente bem escrito, escorreito na linguagem e absolutamente correcto na estrutura frásica e na concordância gramatical, em que por vezes o autor se coloca, diegeticamente, com pruridos de perfeccionista. Numa visão sintética e desconstrucionista da concepção narrativa, eu diria que este livro é uma espécie de alegoria aos Livros e ao Mundo da Escrita, cuja acção se desenvolve num quase monólogo entre o autor e o leitor. Numa estratégia modelarmente concebida, a atenção do leitor é constante e abruptamente interrompida pela desconcertante forma como se encerram os capítulos, deixando-lhe um trago de insaciável curiosidade. Desse estratagema narrativo resulta uma inebriante concentração do leitor na sucessão diegética das páginas, que o leva sempre por diante na progressiva sucessão dos capítulos.
Falando, ainda mais concretamente, deste livro, parece-me que, em primeiro lugar, dele ressalta a surpresa do título: «O que Entra nos Livros». Assim, de repente, apetece-me dizer que o que está dentro deste livro mais não é do que a própria alma do autor, consubstanciada no seu talento e na sua genialidade, eufemisticamente identificada na figura do «mágico velhinho». Acima de tudo, o que está dentro deste livro é a rara e mui singular capacidade imaginativo-fantasista de António Manuel Venda.
Curiosamente, ao contrário do que seria normal e expectável, este livro não se distancia dos anteriores; bem pelo contrário, engasta-se no romance que o antecede, intitulado «O Medo Longe de Ti». Não é a sua continuação, como se de uma saga se tratasse, mas antes de um romance de anamnese, em que uma das figuras secundárias e quase inócuas do livro anterior passou, ou saltou qual malabarista, para o livro seguinte, como se tivesse vida própria, ou, talvez mais concretamente, como se já existisse antes de ser inventado. É a figura do «mágico velhinho», uma criatura inventada pelo autor, inocentemente inspirado em «Branca de Neve e os Sete Anões», obviamente uma reminiscência da infância, modelado pela sua imaginação no aspecto físico do Dunga, mas com o carácter e os trejeitos do Zangado.
Tudo aparentemente infantil e inocente, mas que no decurso da narrativa se transforma numa misteriosa errância psicanalítica, pejada duma envolvência fantasista e quase fastasmática, geradora dum clima enigmático, nebuloso e enleante. O misterioso e insondável «mágico velhinho» vagueava pelos livros, saindo de um e entrando noutro, numa irrequieta odisseia entre autores de diversos quadrantes culturais, aparentemente desconexa e sem qualquer critério, mas que, ao fim e ao cabo, revelava ou estava intimamente relacionada com as preferências literárias do próprio António Manuel Venda. Em certo sentido, o «mágico velhinho» constitui a personificação do espírito errante e irreverente do próprio autor.
Mas o mais desconcertante neste romance é o facto de ser apenas constituído por duas personagens, mais essa omnisciente figura do «mágico velhinho». Em boa verdade, na intercepção dos diferentes estratos narrativos, estão apenas duas personagens, o Autor, especificamente identificado, e o Livreiro, um tal Sapinho Júnior, proprietário duma livraria em Évora, que numa simples carta indagava o «caríssimo escritor» sobre os verdadeiros traços fisionómicos do «mágico velhinho». Esta missiva funciona como rastilho para despoletar todo o romance em torno de uma absoluta ficção: o «mágico velhinho», esse pressuposto duende ou gnomo, híbrida figura inspirada no Dunga, um anão do humor infantil, que talvez por humildade do autor nunca poderia transformar-se num Mago Merlin da Corte do Rei Artur.
O certo é que em torno do «mágico velhinho» nasce, cresce e se desenvolve um belo romance, uma apaixonante história de fantasia e de mistério, que absorve e confunde a atenção do leitor, transformando-se numa espécie de romance policial, sem violência, sem sangue e sem criminosos.
Perante tudo isto, coloca-se-me, porém, e a priori, esta pertinente questão: terão os livros vida própria, e, por isso, a faculdade de gerarem descendência? Terão as personagens de ficção a possibilidade de se tornarem reais e de se independentizarem do berço/ livro em que nasceram? Lendo atentamente «O que Entra nos Livros» somos levados a crer que sim, os livros reproduzem-se e as personagens podem fugir deles para virem connosco passear por entre as nossas vidas.